Entrevistas

8 - "Confissões do violinista que é um charme"

À Revista Neue Revue - janeiro de 2002

Tradução: Sonja Harper/MérciaCosac

Nota de Sonja: Esta revista foi-me enviada por Cathy Camarda. Neue Revue é uma revista sensacionalista; tenha isto em mente, ao ler esta entrevista, que considero bastante divertida.

“Suas confissões; seu casamento; suas mulheres; os boatos; e a mais linda declaração de amor, em vários anos.

Ele é o violinista-prodígio dos nossos tempos; quando toca as cordas de seu valioso Stradivarius derrete os corações de suas fãs, que o chamam de "Rei da Valsa". Já vendeu mais de 12 milhões de CDs; lota seus concertos com platéias de mais de 50.000 pessoas. Suas fãs viajam por longas distâncias, acompanhando-o em suas turnês, e lhe enviam rosas e cartas perfumadas.

Ele tem sua própria orquestra;um império musical com 130 pessoas, entre músicos, técnicos de som e coreógrafos. Vive como um rei; possui um castelo, "De Torentjes", ("As pequenas torres"), próximo a Maastricht, Países Baixos. O castelo, construído no século XV, tem 25 cômodos, e fica em um enorme terreno, no qual ainda existem mais cinco edificações. D'Artagnan, diz-se, fez sua última refeição nesse castelo na noite anterior ao duelo em que foi morto.

André Rieu, "O Rei dos Corações", alcançou grande sucesso e é um homem extremamente atraente; tem 1m e 84 cm de altura e pesa cerca de 80 kg. Sempre usa sapatos engraxados e, galantemente, distribui beijinhos com as mãos. Tem um visual de herói de romance à moda antiga; usa os cabelos longos até os ombros e seus olhos sorriem, sugerindo promessas.

É casado com Marjorie, uma professora, por 26 anos; seu sogro é originário de Berlim. Têm dois filhos já adultos, Marc e Pierre. Nunca se vê André ao lado de sua esposa, e ele é visto frequentemente acompanhado de belas mulheres; e, muitas vezes, pode ser visto sorrindo ao lado delas, nas capas das revistas. Muitos boatos circulam;dizem que seu casamento acabou ou que somente estão juntos por causa do dinheiro.

Com seus braços enlaçando tantas mulheres, seu coração parece estar constantemente em turnê.

Mas, aqui ele fala à "Neue Revue"; e estas são suas confissões:

Celebridades costumam ser um tanto excêntricas e estressadas; você também?

Não sou mais do que um homem velho, feio e gordo, com 52 anos de idade, e com a cabeça em forma de ovo debaixo dos meus cabelos longos;sou um indivíduo inteiramente comum, que simplesmente tenta fazer o seu trabalho da melhor forma possível.

Então porque as mulheres ficam tão fascinadas por você?

Também gostaria de saber; porque não pergunta a elas?

Você teve uma namorada; sua ex-empresária, Petra Heimberg.

Vamos esclarecer isso de uma vez por todas; Petra Heimberg nunca foi minha namorada. A propósito, há muito tempo ela não trabalhamais para mim. Mas esses boatos fazem parte do "show- business" e tenho de conviver com isso.

Sua esposa também consegue conviver com isso?

Marjorie somente ri de tais coisas. Quando, por exemplo, fui receber o prêmio "Echo", na companhia da Petra Heimberg, eu já havia comentado o assunto com Marjorie, e perguntado se estava tudo bem para ela.

E...?

Ela não deseja ser vista em público e não fez objeções a que eu fosse na companhia de outra pessoa. Assim, as consequências são óbvias. Se sou visto na companhia da mesma mulher três vezes, então logo dizem que estamos tendo um caso.

Quando sua esposa lê nas revistas sensacionalistas que você esteve na companhia de alguma mulher em seu hotel; ou que voou com uma bonita jovem em seu jatinho particular para o sul da França, como ela reage? (Essa estória refere-se a Jacqueline Bartels, a jornalista que foi com André a Mallorca, na Espanha, durante as filmagens para o vídeo "Romantic Moments". Ela o entrevistou durante a viagem. Leia esta entrevista em "Um violinista Ssensível).

Marjorie nunca comenta sobre esses assuntos; ela simplesmente confia em mim, e esta é a base do nosso relacionamento, do nosso amor e do meu sucesso.

Então você não tem segredos para sua esposa?

Não.

É porque você não sabe mentir?

Não consigo dizer nenhuma mentira; transparece logo em meu rosto. Nele, pode-se ler tudo: raiva, desapontamento, felicidade, e..., especialmente, se estou mentindo.

No momento você tem alguma namorada?

Sim. Estou quase sempre com ela; cuido bem dela; passo um longo tempo ao lado dela; a toco, e é isto é que é o mais importante, tocá-la: de novo...e de novo.<

Você está falando do seu violino! (em alemão, “violino” é uma palavra feminina – die Geiger)

E em que você estava pensando? Meu violino é o meu único amor de verdade. Ele tem o formato de uma mulher; sua forma é justamente a de uma mulher!<

Um contrabaixo também tem a forma de uma mulher.

Um contrabaixo é tocado em pé, e o violino, deitado. Prefiro minhas mulheres na horizontal. Segurá-lo sob meu queixo e sentir suas vibrações produz um sentimento magnífico; e posso tocá-lo com o arco de uma maneira muito masculina.

Como você cuida dele?

Dou apenas um polimento com um pano. Geralmente é o bastante. Uma vez ao ano, coloco arroz seco dentro de sua caixa e sacudo um pouco. Toco samba com ele, e então o viro de cabeça para baixo e retiro todo o arroz.

Yehudi Menuhin me ensinou esse truque; desse modo pode-se retirar todo o pó acumulado de dentro do violino. Naturalmente, tenho de sacudi-lo até que o último caroço de arroz caia fora. É claro que não vou usar esse arroz para cozinhar, ou comer.

Quando você era garoto, não ficava constrangido por estar tocando um violino ao invés do trompete, bateria, ou até o piano?

Absolutamente!!!

E mais do que tudo, eu o fazia por minha livre e espontânea vontade; ia aos concertos do meu pai, aos cinco anos, e adorava os sons da seção de cordas.

O violino não é um instrumento mais adequado para mulheres?

Não; é um instrumento que você tem que sentir.

Porque há mais violinistas masculinos famosos, do que femininos?

Não acredito que isso seja verdade. Veja Hilary Hahn, Riyo Uemura, Anne-Sophie Mutte ou Vanessa Mae; a propósito, ela tem uma barriguinha maravilhosa... e ainda por cima, toca muito bem.

Pela TV podemos vê-lo completamente absorto por sua música; muitas vezes, com os olhos fechados. Nesses momentos você pensa em seu amor?

Penso em uma centena de coisas ao mesmo tempo: em minha orquestra; se as lâmpadas estão colocadas corretamente; se tudo está correndo bem; sobre minha música; o que eu projeto a partir do palco sobre a platéia que está diante de mim, etc.... Meu cérebro fica acelerado; posso me concentrar em muitas coisas ao mesmo tempo.

Então é bobagem pensar que um violinista coloca seus sentimentos no que está tocando?

Em primeiro lugar, tocar uma melodia requer muitas técnicas; você tem de conhecer a partitura a fundo. Naturalmente, também coloco os meus próprios sentimentos quando toco, mas nunca levo em conta a letra da melodia que estiver executando no momento.

Por que não?

Eu detesto letras; não expressam tanto os sentimentos como a melodia em si. Um exemplo é a "Canção de Vilja", de Franz Lehár. Para mim, é uma das mais lindas melodias que alguém já foi capaz de compor. Contudo, a letra que a acompanha é horrível! As letras são inteiramente temporais, enquanto que as melodias são atemporais. Com elas se pode conquistar corações sem uma palavra.

Quando você toca "Olhos Negros", aquela triste canção russa, é como se o seu violino lutasse contra as lágrimas; nesse caso, você não está interpretando a letra?

Não, absolutamente! Existe uma técnica especial para segurar o arco do violino e produzir um determinado "vibrato" com os dedos. Mostro a você, com prazer.

Se fosse fazer uma declaração de amor ao seu violino, que diria a ele?

Não diria nada, apenas o tocaria.

Mas ele não iria entender!

Pelo contrário; é como ele pode melhor entender: uma vez que ele não pode se expressar em palavras, só pode falar através da música. A melhor declaração de amor que eu poderia lhe fazer seria apenas tocá-lo; assim como se deve cuidar de uma mulher e tocá-la todos os dias; ou então, um dia, ela vai embora.

Que aconteceria se sua esposa o deixasse?

Seria o meu fim; eu morreria. Não quero nem pensar nisso; não existo sem ela. Seria a única razão para não ficar velho.

Alguma vez já se arrependeu de ter se casado com a Marjorie?

Não, nem por um segundo; nós buscamos um ao outro, e encontramos um no outro, o que procurávamos. Muitos rapazes paqueraram a Marjorie, mas ainda assim, ela me escolheu. Marjorie é o meu complemento; se não fosse por ela, eu estaria totalmente desamparado. Tenho de agradecer à Marjorie por tudo o que sou hoje.

Que você seria sem ela?

Nada! Provavelmente estaria na sarjeta; talvez não fosse nem um músico de rua. Quando nos encontramos, eu era um músico romântico, porém, pobre. Essa parte é a que minha esposa queria mudar. Então, ela teve a idéia de abrir uma pizzaria; Marjorie venderia as pizzas, enquanto eu tocaria o violino. Nós até chegamos a alugar um local para essa pizzaria, mas por sorte, as coisas tomaram um rumo diferente.

Você é um holandês, com nome francês; repertório austríaco e leis judias em casa. Há algo também tipicamente alemão?

Creio que não se pode ver as coisas dessa forma. Sinto-me um cidadão do mundo. E a base para isso é a minha música. Acredito que já é hora de qualquer pessoa considerar um cidadão do mundo. Sempre falamos em termos de países e grupos étnicos; por que não nos consideramos todos cidadãos do mundo? Se não modificarmos nossos conceitos, nossa teimosia e nossa estupidez estarão sempre ampliando-se.

O que você quer dizer com isso?

Por onde posso começar? A verdade é que nós estamos nos asfixiando em meio à confusão que nós mesmos criamos. Quem se interessa se nossos oceanos, que pertencem a todos, são poluídos por um petroleiro qualquer, e com um capitão bêbado no comando?<

Você consegue se imaginar como um político?<

Penso bastante sobre isso, e também em entrar para a política, apesar de minha esposa me dizer:"André, você está louco?".

Você fundaria seu próprio partido?

De certa maneira, sim; faria justamente isso. Já tenho até um nome escolhido para o tal partido. Eu o chamaria "Partido da Realização": tudo que fosse decidido hoje, seria realizado amanhã. Nesse partido, não haveria discussões intermináveis, análises ou adiamentos sem fim: nós decidiríamos e então executaríamos. Há muita coisa por fazer.

Com o que se preocuparia primeiro?

Resolver os problemas de trânsito nas redondezas. Precisamos compreender que já passou da hora de impedir que esses imensos caminhões continuem causando engarrafamentos em nossas rodovias; e que continuem poluindo nosso ar com suas emissões tóxicas. Deveriam ser construídos corredores controlados por computadores.

Você compôs uma melodia que batizou de " La Vie est Belle" .

Apesar de toda a crítica que faço a este mundo, sou um eterno otimista. Alguém pode dizer: "não há luz no fim do túnel; é o fim", mas não se pode pensar dessa forma.

Sua grande inspiração é o compositor austríaco Johann Strauss. Por que?

Sou fascinado pela genialidade com que ele compunha suas valsas; eu o admiro muito. Toda vez que ouço sua música, penso: "Puxa vida, sua música é fantástica e eu sou muito feliz e grato, por ser capaz de tocá-la".

Você consegue dançar a valsa vienense?

Definitivamente, não consigo dançar; deixe-me somente tocar, e fazer com que os outros dancem. E então, tudo ficará bem.

Johann Strauss era irritadiço, nervoso, excêntrico e vienense; em que são semelhantes?

Em nada! Sou um homem normal, que se sente em casa, tanto na cozinha, onde me sinto muito à vontade e passo muito tempo lá, como no palco. Claro que não vou para o fogão usando aqueles ternos, mas um avental.

O que você faz na cozinha?

Bem, eu cozinho! Quando eu ainda vivia na casa de meus pais, quase sempre cozinhava para a família. Nós éramos seis crianças, meus pais e minha avó. Cozinhava para nove pessoas, e realmente gostava de fazê-lo.

Imagine que você não seja reconhecido em um restaurante: há música ao vivo; e o violinista vem à sua mesa e toca para você. Que faria?

Se eu estivesse gostando, continuaria ouvindo-o; se não, lhe daria 100 marcos e esperaria que fosse embora logo, mas correria o risco de que ele ficasse tocando por muito tempo, pois essa gorjeta poderia ser excessiva.

"Dreaming" é o título de seu último CD; sobre o que você sonha?

Sonho em estar apto a continuar no mesmo caminho em que estou hoje; que esteja com a saúde que tenho. Tenho uma vida maravilhosa; viajo pelo mundo todo com minha orquestra, divirto-me muito; sou pago por isso, e estou lá no topo.

Muito dinheiro!

Preciso desse dinheiro; tenho 130 empregados e também preciso pagar todo o pessoal de apoio que me auxilia em meu trabalho. São muitas pessoas que dependem de mim para o seu pão de cada dia; para dar conta de tudo isso preciso de muito dinheiro. Mas, parece que nada mais sou do que uma cria da luxúria.

Você possui seu próprio jato!

Um jatinho; não acho que seja luxo, mas uma necessidade para que possa voltar para casa após um concerto; quando não precisar mais dele, o venderei.

Você é dono de um Stradivarius que vale milhões.

É verdade, e estou convencido de que o mestre estava apaixonado quando o construiu, em 1667.

O que o faz pensar assim?

Este violino tem um calor e uma profundidade maravilhosos. Não ria, mas vou te contar uma coisa: ainda não havia passado uma semana da morte de Yehudi Menuhin, e seu violino já tinha sido posto à venda. Eu mesmo o experimentei e logo senti: "Este violino é muito intelectual para mim!". Eu procurava por um instrumento com sentimento, com a expressão e a voz da Maria Callas! O violino de Menuhin não tinha essas características. Mais tarde, alguém me ofereceu este violino, e foi amor à primeira vista!

Qual seria a pior coisa que poderia lhe acontecer?

Ficar surdo como Beethoven, ou quebrar meus dedos, e nunca mais poder tocar.

Que faria então?

Iria reger minha orquestra; permanecer no campo da música. Não seria capaz de fazer outra coisa!

O que a música significa para você?

É o ar que respiro; meu sangue; minha vida; meu tudo!”