Entrevistas

6 - "Música é liberdade"

`A revista Reader's Digest - versão holandesa, em outubro de 2001

Tradução: Sonja Harper/MérciaCosac

Nota de Sonja: Esta mesma entrevista foi publicada também pela versão alemã da Revista Reader's Digest, em fevereiro de 2002.O título e a introdução são diferentes, de maneira que reuni as duas entrevistas a fim de trazer uma informação mais completa.

Alguns trechos daentrevista, que faziam parte da versão holandesa da revista, foram retiradas da versão alemã, especialmente quando o assunto estava relacionado com a Marjorie, esposa de André.

"Não fiz nenhum estudo para isso; faça-o com sentimento; interaja com a platéia; e então, também a música clássica será um sucesso junto ao grande público"

“O violinista André Rieu, nascido em Maastricht, tem ampliado o interesse pela música clássica para uma platéia muito maior. As vendas de seu CD provam isso: foram vendidos entre 13 e 14 milhões de CDs de Rieu. Ele é muito popular fora das nossas fronteiras; é imenso o seu sucesso, especialmente na Alemanha.

Esta é uma entrevista com este fenômeno; sobre o seu sucesso; sobre o seu pai; e sobre a sua visão de vida.

"Música é liberdade."

Ele tem possibilitado a milhões de pessoas o acesso à música clássica; O astro-violinista, André Rieu, vem de Maastricht, Países Baixos, e tem a platéia a seus pés não apenas na Europa, mas também nos Estados Unidos, América do Sul e Japão. Até o momento ele já vendeu 15 milhões de CDs; seus concertos tem os ingressos esgotados até o último assento. Reader's Digest conversa com o artista sobre os segredos de seu sucesso; sua orquestra;e a dificuldade de relacionamento com seu pai.

Você foi criado em uma família de seis irmãos; foi difícil para você encontrar o seu espaço em uma família tão grande?

Eu sou o terceiro dos irmãos; o primeiro dos homens. Não precisei brigar muito para encontrar meu espaço em casa. A luta era travada comigo mesmo; tinha muitos sonhos que desejava tornar realidade, e isto me trazia muita inquietação. Hoje aqueles sonhos já se tornaram realidade: CDs; concertos em várias partes do mundo...

Sinto-me muito feliz por ter sido capaz de realizar aqueles sonhos, e também muito mais equilibrado e satisfeito do que em minha juventude.

Seu pai era maestro da Orquestra Sinfônica de Limburg, e mais tarde, Regente-chefe da "Leipzig Opera House".

Sim, e ele era o maestro também em casa. Era um homem de personalidade forte, que deixava aos outros, literalmente, apenas um pequeno papel figurativo. Nunca se dispunha a discutir qualquer assunto que fosse.

Quando analisa o trabalho realizado por ele, sente-o como uma fonte de inspiração para você?

Ser apenas o maestro de uma orquestra, seria para mim uma experiência bastante limitada. Apresentar uma ópera exatamente como foi composta, é algo que não considero desafiador. Se eu fosse um maestro, creio que pensaria: "Eu teria feito de maneira diferente"; ou "Este trecho não fica bem aqui", ou eu desejaria retirar alguma coisa. Porém, um maestro não pode, efetivamente, tomar atitudes como estas.

Sinto-me muito feliz em ter minhas próprias idéias e planos, com os quais eu posso e vou trabalhar. Minha esposa Marjorie e eu conversamos todo o tempo sobre música, e sobre o que vamos fazer em seguida. Um exemplo: no futuro, você será poderá ouvir os nossos concertos através do meu site www.andrerieu.com.

Então você tem a intenção de trabalhar de modo independente?

Sim; penso que a palavra mais importante do mundo, em qualquer língua, é “liberdade”. Se tirarem a minha liberdade, não terei mais vontade de prosseguir.

Presenciei o que aconteceu com o meu pai; ele conduzia a orquestra e tudo permanecia sempre a mesma coisa; nada era acrescentado. Eu achava tudo aquilo muito monótono, e não queria ser um maestro. Posso reger, mas não sou um maestro; nunca estudei regência. Simplesmente o faço, e funciona bem; faço muitas coisas sem nunca tê-las estudado formalmente. Tampouco sou um homem de negócios, mas também o faço. É a isto que chamo liberdade: que você possa fazer coisas que nunca estudou, mas que saiba como fazer, ou possa aprender a fazer.

É preciso coragem para iniciar algo com que não esteja tão familiarizado?

Sim, e eu adoro! É muito excitante. Quando garoto, ainda bem pequeno, ficava horas observando construírem edifícios; achava muito interessante. Enquanto observava, eu aprendia, e podia então construir algumas coisas em casa, como por exemplo, passar um arame novo em volta da cerca do galinheiro ou algo assim. Naturalmente que o primeiro metro ficava todo torto, mas depois, conseguia fazer com que tudo ficasse muito bom. Então minha mãe perguntava: "Onde você aprendeu a fazer isso?" E eu respondia, sem muito entusiasmo, "Oh..., eu vi alguém fazendo". E, dessa forma é que muitas coisas foram acontecendo.

Você tinha liberdade o bastante, quando tocava na orquestra de seu pai?

Toquei com ele por um ano. E, para ser honesto, não foi um ano muito bom; quando eu chegava em casa, minha esposa logo sabia que meu pai tinha estado regendo a orquestra. E tinha lógica: era seu último ano na Orquestra Sinfônica de Limburg, e isso trazia um stress enorme. Podia-se notar que todo mundo preferia estar longe dali:a rotina; o repertório; nenhuma liberdade para tocar com o seu próprio estilo, ou para dar idéias.... Estar lá não era nenhum piquenique; absolutamente nenhum prazer.

Na época, os empregos eram estáveis; permanecia-se no mesmo emprego a vida toda. As pessoas trabalhavam na mesma orquestra por 30 anos. Por trinta longos anos, era-se obrigado a tocar de uma determinada forma, que não podia ser modificada; não era agradável para ninguém. Nem para o maestro, nem para para a orquestra; meu pai tinha muitos problemas para trabalhar com a Orquestra Sinfônica de Limburg; considerava-a sua orquestra. Apesar disso, aprendi muito com ele; quando conseguia reunir a orquestra, inseria muitas composições inéditas no seu programa; trazia músicos convidados; muitos solistas famosos, como Oistrach, Menuhin, Rostropovich, e tantos outros. Eu os conheci, pessoalmente, em Maastricht, e isso foi muito importante para o meu desenvolvimento.

Era compreensível que meu pai não quisesse deixar a orquestra. Quando se tem uma empresa, e ela se expande muito, chega um momento em que se tem de deixar algumas tarefas para outras pessoas executarem. No decorrer da vida, todos temos de alterar nossos rumos, de vez em quando, e meu pai não tinha coragem para isso.

Você tem essa coragem?

Uma vez eu quis desistir de tornar-me um músico; meu professor de violino, em um conservatório de Bruxelas, era um homem muito rígido. Tomava comprimidos para o coração, e nós, seus alunos, é que éramos os culpados se ele precisava tomá-los; e então ele começava a bater no piano. Ele, às vezes, tornava as coisas tão difíceis para seus alunos, que muitos foram embora e nunca mais voltaram. Secretamente, eu pensava: "Precisa agir desse jeito?" A rigidez, em si, não é uma coisa ruim, mas não precisa chegar ao ponto de acontecerem explosões irracionais de cólera.

Sou um homem sensível à harmonia; não consigo viver às voltas com discussões. Então eu tentava evitar conflitos com aquele professor de violino. Toco esse instrumento desde os cinco anos de idade. Mas, depois de estudar com aquele homem por alguns anos, de repente pensei: "Vou desistir disso; vou jogar meu violino no Rio Maas (rio que atravessa a cidade de Maastricht) e abrir uma pizzaria com minha esposa Marjorie". Guardei o violino, junto com todas as partituras no armário. Quando tranquei aquela porta, senti um enorme alívio: estava livre e leve.

E então fomos organizar um cardápio para o nosso restaurante: a pizza mais cara seria a "Pizza Paganini", e a intenção era tocar uma música de Paganini ao servi-la. Para isso, naturalmente que o violino tinha de sair do armário, e foi assim que voltei à música.

Mas você deixou a Orquestra Sinfônica de Limburg.

Sim, organizei uma orquestra de salão e comecei a tocar músicas de operetas.

Seu pai não gostou muito disso.

Os comentários de meu pai foram mais ou menos assim: "O que é que você está fazendo?". Dizia que aquele não era o seu tipo de música; nem seu tipo de carreira; que não havia me mandado para o conservatório para aquilo.

Mas, por outro lado, reconhecia que nós éramos muito bons naquilo que fazíamos. Por influência da Marjorie, e da minha teimosia, eu fui capaz de traçar meu próprio caminho, e isso é uma coisa importante na vida de todo mundo. Você tem de fazer algo por si mesmo; algo que seja inteiramente seu; e tem de trabalhar duro. Isso é uma coisa que o meu pai me ensinou.

O que tanto lhe atraiu na música de opereta?

O pai da Marjorie era judeu e teve de fugir de Berlim, nos anos trinta. Ele veio para a Holanda e trouxe seus discos, os quais ele costumava sempre tocar em casa. Ela cresceu ouvindo este tipo de música. Eu, pessoalmente, estava mais familiarizado com Bach e Beethoven; nunca tinha ouvido astros da opereta, como Paul Lincke ou Robert Stolz. Minha esposa me apresentou a eles e à sua música. O que mais me atraiu foi a alegria de viver que existia naquela música; uma liberdade; uma descontração; essas coisas não existem na música clássica.

E é uma música vista com muito preconceito; "São apenas operetas", dirão; o que é muito ruim, pois trata-se de uma música genial.

Uma vez tive a oportunidade de ouvir, na interpretação de Elizabeth Schwartzkopf, uma belíssima aria:"Im chambre separée". Se alguém como Schartzkopf interpretava uma canção como aquela, mesmo que fosse com uma atitude de condescendência em relação à música de opereta, pensei: "É maravilhoso; eu também gostaria de mostrar que aquela música era belíssima, e que precisava somente ser executada da maneira correta.

Como você explica o seu sucesso, e o sucesso da sua orquestra?

Os jovens geralmente estão envolvidos com a música com o objetivo de ganhar algum dinheiro extra, mas na maioria das vezes, não chegam ao sucesso. Eu sempre tentei apresentar algo especial em cada concerto, não importa onde fosse: em um abrigo para idosos, ou na inauguração de um "shopping center", ou onde devêssemos nos apresentar. Eu ia lá antes do grupo e discutia tudo em detalhes: onde ia ficar o palco; como deveria funcionar o sistema de som; como seria a iluminação, etc... Eu tinha de estar 100% seguro de que tudo estaria sob controle. E foi assim que fiquei com a fama de ser um homem arrogante e difícil de lidar.

Eu não deixava que eles que me pusessem em baixo de uma escada ou algo semelhante; independente do tipo de apresentação, eram simplesmente descartados. Se, tecnicamente, tudo está em ordem, a platéia, é óbvio, também vai achar que valeu a pena pagar para assistir. Sempre agi dessa forma, e no decorrer do tempo, tem sido assim: transformar um concerto em uma festa. Penso que é importante não subir ao palco simplesmente para mostrar: "Olhe o que sou capaz de fazer; olhe que música magnífica posso fazer." Se fosse só para isso, deveríamos apenas gravar CDs.

O público compra um ingresso para ter algo extra, e isto é que traz vida e calor. Nós, a orquestra e eu, e o público na platéia, somos seres humanos que, calorosamente, interagimos durante uma apresentação. Essa integração e calor, entre outros aspectos, acontecem por causa das brincadeiras, e das estórias engraçadas que conto. Não consigo imaginar um modo diferente de me apresentar.

Esse calor humano é o mais importante, neste mundo de individualismo e comércio?

Sim, acho que sim; tudo que posso dizer é que por causa dessa maneira de fazer as coisas, o sucesso explodiu como uma bomba. É uma coisa diferente, e as pessoas adoram. Não sou uma máquina de fazer música, e demonstro isso; existem milhares de violinistas que tocam melhor do que eu, mas eu mostro que tenho calor e sentimentos como ser humano.

Você também se apresenta em hospitais.

São apresentações muito gratificantes; você não tem idéia do que a música pode fazer. Pessoas que estavam vivendo em estado vegetativo em uma cadeira de rodas por 25 anos; que já tentaram todo tipo de tratamento... Então chegamos para tocar, e elas reagem. E depois recebem uma carta do seu médico: "Como você conseguiu, se tenho tentado por 25 anos?" Isso trás uma satisfação muito grande.

Pode soar como um chavão, mas eu creio que a música é a linguagem que toca os nossos sentimentos mais profundos; recebo cartas de fãs que sofrem de todo tipo de mazelas, onde me contam que minha música e meus vídeos os tem ajudado a superá-las, e que eles passam a ser capazes de lidar com seus problemas muito melhor. Isto é que é o mais importante para mim; mais importante do que quando alguém me diz que toco melhor do que fulano ou fulano...; é apenas um detalhe.

Você se entrega inteiramente ao seu grande amor, a música, e alcançou grande sucesso; com isso mostra que pode escolher seu próprio caminho. Existem pessoas que o consideram como um exemplo; que pensam:"Eu não preciso levar uma vida monótona; posso fazer o que realmente quero"

Eu ficaria muito honrado se isso fosse verdade. Quando eu disse para mim mesmo: "Vou deixar a Orquestra Sinfônica de Limburg", tomei uma decisão que mudou o rumo de minha vida. Hoje, quando olho para trás, acho que, às vezes, é necessário tomar certas decisões na vida.

Não se pode apenas dizer: "Oh..., eu terei sorte". Penso que a sorte existe para as pessoas que trabalham duro e fazem escolhas; para aqueles que assumem responsabilidades por si mesmos. É nisso que discordo da Igreja. Os crentes dizem: "Minha culpa, minha culpa, minha máxima culpa", ou em outras palavras, "se alguma coisa dá errado, a culpa é minha; quando dá certo, foi Deus quem quis". Sou inteiramente avesso a esse pensamento; se você faz algo, errado ou certo, sempre é responsável por seus atos.

Em tudo que você faz é preciso muita persistência.

Quando eu era um garoto, diziam: "Você nunca conseguirá realizar nada na vida", e eu ficava na minha: gostava de tudo cada vez mais e mais, e ficava muito mais motivado. Penso que essa persistência vem do prazer que sentimos com as coisas que realizamos. Por outro lado, quando estamos motivados, adquirimos energia e nunca ficamos doentes.

Nunca fico doente, e a porcentagem de faltas em minha orquestra, por motivo de doença é zero. Acho que meus músicos amam o que fazem. Naturalmente que eles ganham um bom dinheiro e levam uma vida agradável, mas tem que haver aquele algo mais: o desejo real de fazer música em conjunto; assim, as eventuais desvantagens e desconfortos, como por exemplo viajar de ônibus ou de avião por um longo período, não contam muito.

E a platéia sente isso. Quando estávamos em Boston, no dia seguinte ao concerto saiu um artigo na mídia, onde estava escrito que André Rieu teria uma cláusula em seu contrato de que os músicos deveriam sorrir e dar gargalhadas no palco. Bobagem! Meus músicos adoram o que fazem e demonstram isso; não é possível enganar uma platéia por 3 horas e meia. Não se pode fingir que se está feliz.

Toon Hermans (comediante holandês que se apresentava sozinho em seus programas) estava no palco dia sim, dia não, porque ele gostava disso. Se não gostasse, não teria feito tanto sucesso; é simples. Toon Hermans é uma referência para mim, com o seu "timing", seus textos e a atmosfera que criava em seus programas. Durante toda a sua vida, fez brincadeiras sobre nada, e ninguém consegue explicar como ele o fazia. Só dele andar pelo palco, toda a platéia já começava a rir até chorar. E todo aquele riso era claramente saudável; e em qualquer hospital, na noite em que era apresentado um programa de Toon, ninguém ouvia uma queixa sequer de qualquer dos pacientes.

É gratificante para você que a música clássica esteja acessível a uma audiência mais ampla; a pessoas que antes não se interessavam por ela?

Quando a "Segunda Valsa" é assobiada pelo carteiro, graças às minhas apresentações, sinto-me realmente recompensado. Não tenho a pretensão de ser um missionário que sai pelo mundo pregando e dizendo: "A música clássica pertence a todos vocês!". Não é preciso dizer, pois, por si só, já é uma verdade; mas é fantástico quando se obtém o sucesso apresentando o público a toda essa música, e não somente às valsas. Estou indo mais nessa direção; há poucos anos atrás, fiz um CD, o "Romantic Moments", onde tocamos música de Mozart, Puccini, Chopin e Dvorak . Esse CD vendeu muito bem. O CD que estou fazendo agora é ainda mais clássico. Não é o tipo de música que o grande público aceitaria muito rapidamente, mas, por causa do CD, está acontecendo.

E, música é também liberdade.

Manter esta liberdade é a coisa mais importante na vida; se ao levantar-se, pela manhã, alguém pensar que a vida é monótona e cheia de tédio, então tem de fazer qualquer mudança, como, por exemplo, de procurar outro emprego. Certifique-se que a vida tenha significado para você; que, pela manhã, tenha, para aquele dia, uma expectativa cheia de entusiasmo. Não fique muito preso a uma rotina.

Quando garoto, a adrenalina se espalhava por todo o meu corpo quando eu me envolvia com um novo plano, e quando, por exemplo, pensava: "Vou construir um helicóptero de papelão; imediatamente vinha o desejo de correr para casa e começar a construí-lo: então saía correndo para casa. Esse sentimento; esse pique; tem de ser mantido por toda a vida. Eu tenho sempre o sentimento de que as coisas estão apenas começando; e é um sentimento maravilhoso que todos os dias possamos pensar que, nesse dia, as coisas realmente estejam começando.

Voltando à sua pergunta,"música é liberdade"; por que ouvir música? "Para permanecer com um astral elevado e esquecer as preocupações do dia", dirão milhões de pessoas: "Estive estressado por todo o dia e agora vou voltar a ouvir aquela música".

A música traz relaxamento e nos dá liberdade; até mesmo a liberdade de ter expectativas, depois que a música se foi, de pensar com tranquilidade sobre a vida, e sobre o que você realmente quer fazer com a sua.”