Entrevistas

5 - “O violinista sensível"

"Minha vida, minha música, meus sonhos"

À Revista Super-Illu, em 2001

Tradução: Sonja Harper/MérciaCosac

“Ele inspira milhões de fãs e fascina muitas mulheres. Aqui ele fala toda a verdade sobre o seu casamento, e porque quer viver até os 120 anos. Em Maastricht, onde nasceu em 1949, vive com sua família em uma mansão, junto a seu castelo, às margens do Rio Maas.

Sr. Rieu, você conduz uma grande orquestra, inspira milhões de pessoas com a sua música. Você é um homem disciplinado?

Em verdade, realmente sou; mesmo quando não estou em turnê, costumo levantar-me entre 6:30 e 7:00 todas as manhãs.

Como inicia o seu dia?

Com música; minha esposa Marjorie e eu ouvimos as gravações que realizamos no estúdio, e sempre com impaciência pelas reações dela.

A opinião de sua esposa é importante?

Sim; muito. Se Marjorie cantarola acompanhando as novas músicas, então sei que são boas; no entanto, se ela fica quieta, sei que algo não está tão bom como deveria. E ela quase sempre está certa.

Marjorie parece determinar o curso da sua vida; o que ela representa para você?

Tudo; simplesmente tudo. Se ela não estivesse ao meu lado, provavelmente hoje eu estaria na sarjeta. Marjorie foi, e ainda é, meu grande apoio.

Como vocês se encontraram?

Foi em 1962. Ela era da mesma classe da minha irmã; tinha 15 anos; sempre gostei de mulheres mais maduras. (risos) Marjorie possuía aquele algo especial, que a tornava tão atraente para mim. Quando, mais tarde, voltamos a nos encontrar, já adultos, a faísca inicial tornou-se uma grande explosão: sentimos que tínhamos de viver juntos.

O que é este algo que te fascina tanto?

Não sei exatamente, mesmo depois de tantos anos; é uma união misteriosa até hoje.

E esse amor não fica ameaçado, com você fora de casa tão freqüentemente?

Certamente. E é mesmo difícil, pois vivemos duas vidas diferentes; uma, onde somos independentes um do outro; e outra, juntos, onde cada um tem as suas tarefas a cumprir, e com as quais nos identificamos. Nós entendemos isso perfeitamente bem, e ambos temos os nossos momentos de felicidade. Cada um tem o seu espaço, e não nos consideramos como propriedade um do outro; dessa forma, o nosso casamento está arejado e renovado. Além do mais, sempre trabalhamos duro, juntos, desde muito antes de alcançar o sucesso. Agora fico seis meses por ano fora de casa, em turnê, ou ocupado com outras tarefas.

O sucesso atrai muitas pessoas invejosas; você está protegido contra isso? Então o que há de verdade sobre os boatos de que você comprou uma casa em Hamburgo para estar perto de sua empresária alemã Petra Heimberg?

Bem, vamos colocar um ponto final nessa história: adoro Hamburgo; é uma cidade cheia de vida. Petra Heimberg nunca foi um caso meu, e há um ano, ela não trabalha mais para mim. Esses boatos fazem parte do "show-business" , e sou obrigado a conviver com isso.

E sua esposa, Marjorie?

Ela acompanha tudo; por exemplo, quando fui com Petra à premiação do "Echo", primeiro perguntei a Marjorie se estaria tudo bem para ela. Como ela evita publicidade, a conseqüência é que, se sou visto na companhia da mesma mulher mais que duas vezes, imediatamente começam os boatos de que estamos tendo um caso. Marjorie realmente só pode rir desses fatos; ela sabe que eles fazem parte da minha profissão.

Ela nunca lhe disse: "André, eu ouvi dizer, ou li algo, sobre o qual precisamos conversar"?

Nunca; nós confiamos inteiramente um no outro. E essa é a base do nosso amor, e também a base do meu sucesso.

Você não tem segredos para sua esposa, ou seus filhos?

Não; não consigo mentir. Tudo reflete em meu rosto: raiva, desapontamento, alegria, felicidade... Todos me dizem que só de olhar para mim, já sabem o que estou pensando.

E se algum dia sua esposa lhe disser: "Escute, eu tenho um outro alguém"?

Seria o meu fim; eu morreria. Não quero nem pensar sobre isso. Absolutamente; eu não desejaria mais viver. Este seria o único motivo para não ficar velho.

Você se casaria com a Marjorie novamente?

É uma pergunta difícil, mas, às vezes, reflito sobre isso. Nós nos encontramos e descobrimos um ao outro. Muitos garotos a cortejavam, mas ela decidiu-se pelo André porque ele tinha algo diferente de todos os outros.

O pai da Marjorie tem sua origem em Berlim; nos anos 30, ele emigrou para Maastricht; você conhece as suas raízes?

Bem, ele morou em Neukolin e em Treptow; porém ambas as casas, nas quais ele viveu, não existem mais.

Ele e sua esposa possuíam uma grande coleção de discos, que Marjorie os ajudava a escolher; ela trouxe essa coleção para nossa casa quando nos casamos e conhece de cor todas as canções dos anos 20.

Eu cresci exclusivamente no ambiente da música clássica, e fiquei agradavelmente surpreso com as melodias de Paul Lincke e as canções de Sarah Leanders. Essa música, mais leve, foi a base para o repertório da minha orquestra de salão, pois combinava melhor com a minha personalidade.

Marjorie e eu iniciamos uma busca por partituras das músicas dos anos 20, colocando um anúncio. Recebemos milhares de partituras; organizamos tudo, e Marjorie então, decidia o que eu devia ou não devia tocar. Posso confiar nela cegamente!

Ela ainda corta seus cabelos?

Algumas vezes; em outras oportunidades, eu mesmo os corto. Tive de aprender a fazê-lo, porque normalmente Marjorie fica em Maastricht enquanto estou em viagem.

Certamente você pode pagar por um corte de cabelo.

Não gosto que estranhos ponham a mão em meus cabelos. Além do mais, minha cabeça tem a forma de um ovo, mas, Graças a Deus, consigo disfarçar usando os cabelos longos.

De quantos ternos você dispõe para os concertos?

Oito.

Todos comprados?

Não, Marjorie e eu desenhamos aqueles trajes; eu escolho o tecido, e uma costureira vem à nossa casa em Maastricht, tira minhas medidas e os confecciona. Quando estou em turnê, levo sempre oito deles comigo.

E diferentes?

Não, são todos iguais; quando estou no palco suo bastante e tenho de trocar os trajes durante o concerto. É uma coisa inteiramente normal.

Seus músicos também vestem trajes especiais.

Sim, todos os músicos têm quatro conjuntos como guarda-roupa de palco; isso vale para todos. A propósito, existe uma boa história sobre o guarda-roupa dos meus músicos femininos.

Então vamos ouvi-la.

Com prazer!

Todos os seus vestidos foram confeccionados por duas jovens; elas me apresentaram seus desenhos e eu gostei deles. Então lhes disse: preciso de 130 vestidos como estes; em três meses. Podem fazê-lo?

E elas conseguiram?

As jovens concordaram; contrataram outras nove costureiras e mergulharam no trabalho. Todos os vestidos ficaram prontos a tempo. Para isso, aquelas duas jovens montaram a sua própria empresa: André Rieu criou empregos em Maastricht! É uma sensação muito boa.

Além da Marjorie, seu irmão Jean-Philippe também trabalha com você; vocês estão construindo um império familiar?

Ele trabalha para mim há dois anos; temos um relacionamento fantástico.

Quando éramos crianças, não nos dávamos tão bem assim; ele é oito anos mais novo que eu. Naquele tempo, ele destruía tudo o que pegava e aquilo me chateava muito. Hoje, compomos música juntos. Em meu novo CD há uma composição nossa:  a "Ballade".

Além disso, ele trabalha como meu diretor e sabe colocar minha música em imagens com a maior competência; ele a sente exatamente como eu, e consegue visualizar as imagens que tenho em minha mente.

Seus filhos também trabalham com você?

Marc está com 23 anos e estuda História da Arte; ele coleciona músicas-tema de filmes e nos seus momentos de lazer, também gosta de ouvir música clássica.

Pierre acabou de prestar os exames de admissão, e pretende cursar Direito; ele quer trabalharem nossa empresa, no futuro. Desde garoto ele sempre nos acompanhou em nossas turnês, durante as férias. Ajudava na montagemdo palco, e também na área de iluminação. Com dez anos, quando tocava em uma festa, dez minutos depois todo mundo já estava dançando a "polonaise". Ele consegue motivar o público; em poucos anos ele poderá cuidar dos contratos da empresa.

Você se aborrece porque nenhum dos dois toca algum instrumento?

Dei lições de violino aos dois, mas nunca quis forçá-los. Marc sempre ficava com dores, aqui e ali, quando tinha de estudar, e cada vez ficava pior. Então, quando o pequeno Pierre lhe bateu com o violino na cabeça, acabou a carreira dos meus filhos como violinistas.

O que acontece quando você passeia pela cidade na companhia dos dois?

Fantástico; as garotas sempre dizem: "Olhem, lá vão os três Rieu."

É divertido; eles têm uma relação próxima comigo: conversam sobre seus problemas, e fazem o mesmo com a Marjorie. Somos uma família unida que permanecerá sempre assim.

Você tem cinco irmãos e irmãs; você os vê frequentemente?

Nós costumávamos nos ver com freqüencia, e guardamos belas recordações, mas não somos uma família muito unida. Meus irmãos e irmãs são todos casados, têm crianças, e exceto por Jean-Philippe, não vivem próximo a Maastricht. Mas admito que deveríamos encontrar tempo para nos vermos mais.

Já teve problemas no trabalho junto com seu irmão?

Naturalmente que temos diferenças de opinião algumas vezes, mas no final, minha vontade sempre predomina. Sou o mais velho e, além do mais, estou sempre certo. (risos). Talvez a sabedoria venha com a idade, e eu vou estar mais sábio quando fizer cem anos; mas nunca vou estar velho.

Você pensa, algumas vezes, em parar?

Não quero parar nunca!

Se, por exemplo, saísse em longas férias, logo ficaria doente. Na verdade, estou só começando. Comprei um terreno ao lado do estúdio de som, onde pretendo construir meu próprio estúdio de TV; e ter minha própria equipe de câmeras.

O que você está planejando?

Jean-Philippe e eu queremos gravar uma grande série de CDs e DVDs relacionados com todo o período clássico.

Desculpe-me; uma fantasia?

Sim, naturalmente! (muitos risos). Eu sei: é muita coisa; uma vida de trabalho. Mas quero viver 120 anos; então ainda tenho 70 anos pela frente. Falo sério! Em cerca de nove meses inicio a construção; e, portanto, por um longo período ainda, não terei tempo para morrer.

Quais foram os melhores e os piores momentos de sua vida?

O pior foi a morte do meu pai, André Rieu Senior, em 1992.

Meus irmãos, minha mãe e eu ficávamos ao lado do seu leito de morte. Meu pai sofreu um ataque de apoplexia e ficou paralisado. Ele só podia fazer sinais com a cabeça, e ouvir. Sofreu muito. Foi terrível para ele e para nós. Uma morte tão lenta que não desejo para ninguém. Não podíamos fazer nada por ele, e nos sentíamos completamente desamparados; vivíamos constantemente com a esperança, sem sucesso, de que ele pudesse melhorar.

E o melhor momento?

Trabalhar junto com Jean-Philippe; sei que nosso pai teria adorado. Trabalhamos juntos há cerca de dois anos, e sou grato por isso todos os dias.

O que você gostaria de ter sobre o seu túmulo?

Não tenho idéia; nunca pensei sobre isso. A morte está tão longe de mim. Ajo sempre de forma espontânea. Quando subo ao palco e Marjorie está próxima de mim, sempre pergunto a ela o que devo dizer à platéia; não escrevo as falas para os concertos: improviso!

Você ainda tem medo do palco?

Vamos dizer assim: sempre há algum stress; conheço bem meus companheiros de palco, mas toda vez há alguma tensão. Queremos fazer tudo juntos; é como um parto.

E quando as fãs gritam histericamente, e enviam cartas se oferecendo explicitamente?

Há aquelas fãs que me vêem como propriedade sua; mas no universo de fãs, talvez somente umas dez tenham esse comportamento.

A Steffi Graf, por exemplo, foi perseguida por muitos anos por um fã enlouquecido, que queria se casar com ela e lhe dar um Porsche.

É terrível, mas, nessa profissão, você tem de aprender a conviver com esse tipo de coisa.”