Entrevistas

4 - "Em casa com André Rieu"

Entrevista realizada em 2003, sem informação da data precisa.

Tradução: Sonja Harper/MérciaCosac

“Com a pele bronzeada, cabelos longos e apresentações eletrizantes, André Rieu (52) tem pouco em comum com a imagem que normalmente associamos àqueles que transitam pelo mundo da música erudita. No entanto, o amor que ele dedica a essa música é o mesmo.

"Hoje em dia é raro ouvirmos música clássica; trato como missão pessoal trazer essa música maravilhosa de volta às pessoas."

Fomos até sua casa em Maastricht:

André, há tempos, mostrava suas habilidades ao violino apresentando-se com uma pequena orquestra, com a qual viajava através da região conhecida como "Benelux" , formada pela Bélgica, Holanda e Luxemburgo. O sucesso demorou para acontecer e, no início, André e sua esposa Marjorie viram-se forçados a sobreviver com base na renda adicional que Marjorie conseguia obter, como professora e tradutora de livros.

Por se sentir um tanto infeliz com a ausência da atmosfera que tanto imaginava para seus concertos, e com a atitude apática das platéias, resolveu criar a sua própria orquestra; uma orquestra capaz de trazer nova vidaao letárgicoe vegetativo mundo da música clássica.

Ao percorrer seu imenso estúdio em Maastricht, na Holanda, pudemos perceber que ele estava inteiramente certo. O estúdio é verdadeiramente impressionante!

Sim; é impressionante, não é? Quando decidi que iria construir meu próprio estúdio, todos diziam que eu estava completamente louco. "Hoje em dia, não há uma alma que ainda queira gravar de forma integral", diziam. Com a evolução técnica, tudo ficou mais simplificado. Os músicos ficam em minúsculas cabines, onde devem fazer a sua parte.

O técnico de som então analisa se as gravações podem ser trabalhadas de maneira aceitável, utilizando toda espécie de botões e as mais modernas inovações em computadores. Se algo sair errado, não importa. É só filtrar, e tirar fora. Isso é terrível!

Senti que os meus músicos começavam a tocar sem entusiasmo e produziam pouca música. Decidi mudar essa situação construindo este estúdio. Com toda a orquestra tocando em conjunto, o resultado é muito melhor; e a música fica muito mais vigorosa. Mas, naturalmente, há desvantagens também; os músicos devem ser realmente competentes, se se quiser obter um som marcante, como um time. Se alguém perde uma nota em algum lugar, ou outro comete um pequeno erro, realmente não é possível corrigir, e então é preciso começar tudo de novo.

Além disso, dou grande importância à luz natural. Ficamos muitos dias confinados em estúdios pelo mundo afora. Depois de 3 semanas, fica-se completamente desnorteado. Estamos em Marte? É dia ou noite? Eu já estava ficando muito estressado com isto. E quanto mais velho fico, maior é a minha atração pela luz do dia. Quero estar ao ar livre, e aproveito cada momento. Talvez eu sinta, instintivamente, que a minha hora está chegando... (risos). Está cientificamente provado que a luz influencia o ambiente; é por isso que os médicos prescrevem terapia com luzes para pessoas em depressão. Eles devem deitar-se sobre aquelas camas iluminadas, e isso ajuda. Realmente, meu estúdio pode ser visto como uma imensa cama iluminada.

Até hoje ainda fico bastante excitado ao percorrer o estúdio, e então penso: "Puxa,eu posso tocar aqui!."

Você percebe claramente essa atitude positiva no último CD.

Falando sobre o seu mais recente CD, o “Dreaming", diz-se que ele contêm referências à sua juventude.

Há alguns anos eu estava em uma séria discussão com meu pai, que era um regente de orquestra. Mais uma vez argumentávamos sobre a música erudita. Eu achava que essa música tinha se tornado demasiadamente esnobe e terrivelmente maçante, sem nenhuma chance de interação com a platéia, que cada vez mais a abandonava. Eu queria trazer mais vida e humor aos concertos, e para isso precisava criar minha própria orquestra. Após alguns momentos em silêncio, e alguns argumentosa favor e contra, ele finalmente entendeu a direção que eu desejava tomar. Então, ele pegou uma folha de papel e listou uma série de composições que ele pensava que eu deveria executar com a minha orquestra. Este CD contém as músicas que meu pai havia anotado naquele pedaço de papel.

Porque você demorou tanto tempo para gravar essas composições?

Eu as considerava muito eruditas. Somente agora me senti pronto para executá-las, pois são composições geralmente rotuladas como "pesadas". Eu particularmente, quero provar que trata-se de uma música belíssima. É um dos meus sonhos; um dos meus objetivos: apresentar ao grande público toda música clássica que eu considere de valor. No momento, poucas pessoas a ouvem, para não dizer absolutamente ninguém. Se formos calcular isto em termos de porcentagem, creio que chegaríamos a zero ponto zero. Não posso compreender porque isso acontece. Penso que muitas pessoas gostariam de ouvi-las, mas são afastadas pelo rótulo "erudito". Com café e bolo, as pessoas, alegremente, a acompanham entusiasticamente, e nem se dão conta de que se tratava, simplesmente..., de Beethoven. A música clássica é envolta em uma aura de elitismo; de museu. Ela é apresentada de forma cada vez mais restrita e sombria, e isso, absolutamente, não é necessário. Sinto como missão pessoal, trazer essa música maravilhosa de volta ao grande público.

Você torna a música clássica especialmente interessante com elementos da cultura pop, alvoroço, pompa e circunstância, e muito show.

De fato; e não me envergonho disso. Conheço minhas qualificações artísticas; sei como fazer e adoro fazer. Não só é mais agradável para a platéia, mas para mim também. Quero estar livre daquela atitude pomposa e rígida.

Ao apresentar-me, sinto-me confortável em minha própria pele. Como se fosse um estudante, você está sempre praticando e, continuamente, superando suas próprias inseguranças: " Vou conseguir?; sou capaz?; não seria melhor se eu fizesse qualquer outra coisa?; ninguém vai me ouvir...". Comigo, pelo menos,acontece assim. Mas agora cheguei a um ponto onde as pessoas, impacientemente, aguardam meu próximo CD ou algum concerto na sua vizinhança. E este é um sentimento muito bom.

Então você se junta àqueles artistas que sabem tocar para as massas, ao estilo de Andrea Bocelli, ou o nosso Helmut Lotti..

Todos contribuem para trazer a música clássica para mais perto das pessoas, mas eu tenho um histórico diferente. Tenho formação erudita, e tento fazer minha música segundo essa formação. Helmut vem de um outro ambiente. Ele começou como um "cover" de Elvis Presley, o que, aliás, ele faz magnificamente. Se você fechar os seus olhos, não poderá dizer se é o Helmut cantando, ou o "Rei" em pessoa. Ele canta, e eu toco violino; esta é a grande diferença. Comercialmente, há mais pontos em comum: nós temos um impacto semelhante sobre a música clássica.

A desvantagem da popularidade é que você é obrigado a expor-se a escândalos.

Vem junto. Não que seja agradável, mas... OK...se sou apanhado dirigindo a 230 km por hora em uma auto-estrada, tenho de conviver com o fato de que as pessoas vão saber disso ao ler os jornais. Paguei muitas vezes por ser "um pé de chumbo": isto é de minha responsabilidade.

Mas quando, com a regularidade de um relógio, rumores sobre um possível adultério aqui, e flertes acolá, correm o mundo, realmente fico muito chateado. Primeiro, que não é verdade, e segundo porque os sentimentos de minha esposa possivelmente podem ser feridos. Eu nunca arriscaria uma relação estável, como a que tenho com a Marjorie, por uma aventura sem significado. Não sei como vêem isso, porque não há o menor fundo de verdade nesses fatos. Talvez, no futuro, eu devesse pedir uma porcentagem sobre esses rumores, pois dessa forma, pelo menos eu ganharia alguma coisa com eles também. Por outro lado, esse tipo de fofoca é uma confirmação da minha popularidade.

Você já tem mais de 50 anos; continuará dedicando-se tanto aos seus concertos?

Os concertos são o ápice. É para isso, afinal, que fazemos tudo. A acústica nos estúdios aqui pode ser fenomenal, mas é muito mais gratificante estar no palco com a orquestra. Dar o melhor de nós, por três horas, para uma grande platéia completamente enlouquecida. Isso é ótimo. Eu nunca tive uma noite em que algo saísse errado, a ponto de me fazer desejar que aquela noite nunca tivesse existido. Isso nos motiva a seguir em frente. Querer fazer sempre melhor, e cada vez mais.

Não sou do tipo que tem de ser levado ao palco e que detesta seu público. Pelo contrário; amo tanto o que faço, que gostaria de morrer fazendo música. Não morrer no palco, imagine; isso para mim, seria um tanto melodramático. Não posso fazer isso com o meu público; mas ainda assim, morrer, de preferência, enquanto estiver ocupado com a minha música.

Você não somente realiza concertos, mas também grava regularmente programas para a TV, e participa de inevitáveis noites de gala e shows de premiação.

Este é o outro lado da moeda. Eventos como o "World Music Awards", em Mônaco, me fazem subir pelas paredes. Aquelas pessoas, que pensam que são importantes, e se comportam como cãezinhos amestrados, só para estarem perto do Príncipe Albert; aquilo me deixa doente.

Esses eventos de premiação não tem nada a ver com o reconhecimento do seu trabalho, mas com a forma mais vulgar de comércio. Eu sei, por mim mesmo, quantos CDs eu vendi e como as salas de concerto estão cheias. Assim como eu sei se um CD está bom ou não; e se acontece daquele CD vender bem, é porque as pessoas estão apreciando o caminho que escolhi. Não preciso de troféus de ouro, platina ou chocolate para saber disto.

As aparições na TV também não constituem o ponto mais alto da apreciação musical, mas tentamos tirar o melhor disso; vamos lá e tentamos nos divertir. Há sempre alguma coisa que faz valer a pena.

Sobra tempo para sua família, com essa agenda tão sobrecarregada?

Faço uma clara distinção entre minha atividade profissional e a minha vida particular. Quando faço música, costumo estar completamente envolvido, e coloco bastante energia. Mas não permito a ninguém me tirar o tempo que tenho para dedicar à minha família. O equilíbrio entre família e carreira está mais ou menos estabelecido, embora nem sempre seja fácil. Um exemplo são as férias que planejamos juntos; não sou absolutamente o tipo de pessoa que sai de férias. Se você me dissesse que eu precisaria descansar, por três semanas, em Costa Brava, eu morreria. Três semanas sem música, sem idéias e sem ação. Eu não sobreviveria. Tenho de manter-me atuante.

Eu me lembro de umas férias que passamos na costa belga; penso que em Middelkerke. Para os garotos, ainda bem pequenos, era, naturalmente uma grande diversão: construir castelos na areia; correr em volta em carrinhos; e nadar. Eles gostavam bastante. Mas eu, a essa altura, já estava subindo pelas paredes do apartamento que havíamos alugado, de pura frustração. Dois dias depois, corri para casa para pegar o meu violino. Mas a conscientização de que meus filhos tinham o direito àquele tempo em família, me fez enquadrar os meus sentimentos pessoais no contexto. Esta é, em realidade, também a principal razão pela qual tento, hoje, manter minha família afastada da carreira. Os momentos em que estive mais afastado dos meus filhos ocorreram justamente durante a sua adolescência, e o sobrenome Rieu realmente não era muito agradável de se ter.”