Entrevistas

33 - "André Rieu com J. B. Kerner - 2005"

Em 29 de novembro de 2005.

Tradução: Helma Bauer/ Sonja Harper/MérciaCosac

Johannes B. Kerner apresenta um "talk-show" na TV alemã. Para este programa foram convidados, além de André Rieu, Henning Scherf (Prefeito de Bremen), e os comediantes Bastian Pastewka, Ch. M. Herbst, Michael Kessler e Jürgen Tonkel.

“Ele faz os nossos corações baterem no ritmo três por quatro, e trás aos políticos alemães alguns temas para meditação. Boas-vindas ao ganhador do "Grammy Duplo", André Rieu! André, você sabe que falaremos um pouco sobre política; já me referi a isso na introdução do programa.

Ah, estou vendo...

Quando você esteve aqui, como convidado, em 2004, comentou sobre um talentoso violinista, com apenas 4 anos de idade, de nome Akim. Como está ele hoje?

Muito bem; ele tinha 3 anos de idade naquela época. Três semanas atrás nós dois estivemos em um programa da TV holandesa. Ele agora está com 5 anos, e está progredindo incrivelmente bem.

Quanto progresso ele já fez na música?

Bem..., pude proporcionar a ele uma excelente orientação musical; dei-lhe um violino de presente, e o ajudo com as lições, pois tenho contato semanal com ele. Sinto-me responsável por ele.

É um talento excepcional! Como você consegue proteger esse garotinho, de forma que não haja pressão excessiva sobre ele muito cedo?

Esta é exatamente a questão; depois de trazê-lo pela primeira vez a um programa de TV, em âmbito nacional, tomamos providências para que ele ficasse fora de alcance da mídia por 3 semanas. Agora, ele pode estudar com toda a paz e tranqüilidade de que precisa.

Quem cuida dele na vida diária; seus pais?

Sua avó, principalmente; e seus pais. Não economizei esforços para encontrar pessoas que tivessem experiência em lidar com crianças muito talentosas, e finalmente as encontrei.

Onde esteve com ele na TV; foi na TV holandesa?

Sim, exatamente.

OK, vejo que você vem trazendo o garoto, devagar, mas regularmente, para o contato com o público.

(A seguir é mostrado um videoclipe com Akim Camara)

O rosto dele está sempre iluminado daquela forma, ou algumas vezes ele fica nervoso?

Não, quase todos os dias ele está de bom humor; está sempre brincando ou procurando por novas brincadeiras. Não sei se você se lembra do concerto especial que apresentamos no ano passado; Otto estava lá, e ele está sempre fazendo brincadeiras; e quando ele fazia alguma, Akim imediatamente o imitava. Ele está sempre divertindo-se.

Mas parece que agora você não tem mais tempo para acompanhá-lo como gostaria, pois está ocupado por esses dias, ganhando de muita gente nos EUA. Está em primeiro lugar nas paradas de música clássica, nos EUA, e foi indicado para 2 "Grammies". Como aconteceu tudo isso?

Ah..., boa pergunta... Como pode acontecer.. parece que estão felizes com a minha música.

Esta é também a minha impressão; quero dizer... no mundo da música, o "Grammy" é algo como o Oscar, no cinema. Você deve estar muito feliz.

Sim, uma indicação foi para melhor arranjo instrumental, e o outro foi por..., a propósito, não sei para que foi! Foi mais um... (a segunda pré-indicação foi para melhor "crossover" clássico).

Contudo, mais uma vez... uma premiação; e você mostra o modo holandês despojado de ver as coisas; como: " Oh, sim, vamos esperar e ver o que acontece". Sendo um músico holandês de sucesso não apenas na Holanda, mas em toda a Europa, como aconteceu de ser premiado lá nos EUA, uma vez que trata-se de um mercado inteiramente diferente do mercado europeu?

Não penso que seja um mercado diferente; simplesmente vou lá e realizo concertos, da mesma forma que faço aqui; as pessoas vêm nos assistir, e nós tocamos... da mesma forma que aqui.

Mas, tenho a impressão que ...minha experiência com os astros americanos da música é algo como:”São cercados por empresários, maquiadores, inúmeros guarda-costas... jatos particulares, etc.".

Mas, eu não sou assim; não ajo dessa forma. Simplesmente vou lá e... tenho que dizer isso..., a partir de quando colocamos toda a organização em nossas mãos, as coisas estão indo muito melhor. Dispensei as pessoas que trabalhavam para mim nos EUA, e agora fazemos tudo por nós mesmos.

Você quer dizer que havia pessoas que trabalhavam para vocês nos EUA, mas que não estavam fazendo um bom trabalho...

Exatamente; você sabe...., esse sentimento americano de anos atrás, como ir à lua, e assim por diante... isso não existe mais no negócio da música. Agora as coisas são mais do tipo: "Você pode dar 2% , e mais 2% , e assim por diante... e no fim, ninguém, de fato, fica feliz, quando faz um bom negócio; mas também não fica infeliz quando o perde. Não há...

Você quer dizer que não há alma por trás do negócio?

Sim, e quando sinto isso; isto é: que eles não estão realmente curtindo, digo: "OK, despeça-os e vamos fazer por nós mesmos", e então funciona bem.

Você iniciará uma nova turnê pelos EUA; significa que os corações estarão batendo no compasso três por quatro na América também?

Sim.

A América é o objetivo final, ou você irá adiante... por exemplo, que tal... China. No ambiente da indústria, agora só se fala na China; é um mercado também para a música!

Sim, naturalmente...o mundo todo; minha música não tem limites: é para todos.

Porém, é preciso dizer que me interesso também pela política, e por enquanto, não desejo ir à China. Acho que o ideal é quando todos têm a mesma oportunidade de ir aos concertos; minha platéia é "Sr Todos". E, esta não é, no momento, a situação existente; nem todos podem ir a um concerto, mesmo que pudessem pagar por isso. Atualmente são poucas as pessoas ricas, e assim, não há possibilidade...é uma grande pena.

Significa que você não irá à China, uma vez que...?

Tenho sido convidado, e eles dizem: "Por favor, venha; dinheiro não é problema; você só terá de vir e tocar" . Era a mesma situação quando aconteceu a queda do muro; recebi um telefonema da Rússia para ir e tocar. Perguntei qual seria a audiência, e eles responderam: "Sim... sobre a audiência...algumas pessoas..."

Que pessoas?

Não sei, mas tenho certeza que seriam pessoas ricas; e não quero isso. Não dessa forma! Quando tocar, quero fazê-lo para a minha platéia. Da forma como as coisas estão acontecendo na China, creio que não nos apresentaremos lá.

Os povo chinês conhece Stromberg? (esta pergunta foi dirigida aos comediantes convidados; Stromberg é um programa humorístico da TV alemã, apresentado por Chr. M. Herbst).

Herbst: Stromberg não é tão conhecido nem na Alemanha.

Kerner: Não seja tão modesto.

Herbst: Como você chegou a essa pergunta?"

Kerner: Muito simples; sou o responsável pelas perguntas e eu as faço aos convidados. Não tenho que justificar minhas perguntas. (tudo dito em meio a muitas risadas).

Herbst: E não pensei em recusar a respondê-las; sim, naturalmente que Stromberg é conhecido na China. E eu sou o responsável pela mentira!

Kerner: Obrigado, já respondeu à pergunta; e eu posso administrar essa mentira.

(E Kerner voltando-se para André): "André, a conquista dos EUA será um sucesso; quero dizer... uma conquista pacífica, com música! Na América as pessoas te reconhecem nas ruas, ou ainda não é bem assim...

Sim, sim.

De verdade? Por causa da sua presença na TV, eu imagino... André, quando foi a última vez em que você não foi reconhecido na Holanda?

Não ser reconhecido? É difícil; não é mais possível de acontecer. Pelo menos em Maastricht, onde moro. Não é uma cidade tão grande; tem cerca de 150.000 habitantes; todos me conhecem muito bem e dizem: "André está na cidade; vamos deixá-lo em paz".

Você vive em um castelo, não é?

Um castelo no centro da cidade.

Não, não fica no centro, mas nos arredores da cidade.

Li que ele era localizado no centro da cidade; e imaginei uma casa de campo, com vista, de um lado, para os Alpes, e do outro, para o Mar do Norte; seria o sonho de todo mundo...

Não, não é bem assim; não se trata realmente de um castelo.

(Mostra-se uma foto do castelo, e os convidados divertem-se muito com a resposta de André... castelo, casa de campo... e fazem algumas brincadeiras comparando o castelo a uma casa financiada).

Ah...sim! É um castelo especial; e quando você está na cidade, as pessoas sabem que você precisa ter algum tempo para descansar e pensam: " Não vamos importuná-lo."

Todos são muito gentis, e me deixam sossegado; mas quando estou em Amsterdam, por exemplo, as pessoas aproximam-se e pedem autógrafos.

Algumas vezes pode ser um incômodo; por exemplo, quando você quer sair para um passeio com sua esposa e passar um tempo juntos.

Sim, de fato; algumas vezes passa da conta.

Mas ainda dá para tolerar, não é? Você consegue administrar a situação.

Sim, consigo.

As pessoas acham normal que você viva em um castelo... ou dizem: " Rapaz...ele pegou firme no violino e agora pode viver em um castelo!" Sentem ciúmes... como tão bem sabemos aqui na Alemanha; é assim também na Holanda?

Hummm..., não sei. Mas os vizinhos são muito gentis e sabem que aquela construção estava abandonada pelo proprietário anterior, e em péssimo estado de conservação; e que André vai aos poucos renovando-a e restaurando-a.

E por isso, sentem-se agradecidos. Existe tributação sobre fortunas na Holanda? Algo assim logo deverá ser estabelecido na Alemanha. Já ouviu algo sobre isso na Holanda?

Não, parece-me que não; não creio...

Talvez as alíquotas de impostos na Holanda já sejam altas o suficiente...

Tenho de confessar: não me envolvo tanto com dinheiro... com administração financeira.

Tonkel (um dos humoristas): Não; ele simplesmente o joga fora. (fala educadamente e provoca muitas risadas).

Sr. Scherf, pergunta Kerner, que acha da tributação de grandes fortunas?

Sr Scherf: Uma vez descobri que uma simples secretária paga mais imposto que um CEO. Muito mais; e isto não está certo. Não deveria ser assim: todos têm de dar sua contribuição em uma comunidade; mas de uma forma justa. Todos queremos segurança nas ruas, nos jardins de infância,nas escolas etc...; porém as alíquotas devem ter um certo equilíbrio.

André, você disse que é uma pessoa interessada nos problemas sociais e políticos; você gostaria de pagar mais porque ganha mais dinheiro?

Sim, naturalmente; como foi dito antes: é justo! Fico contente por viver na Europa, pois comparando, por exemplo, com a situação na América, as coisas por aqui estão relativamente equilibradas, e nem tudo é privatizado.

Você é um importante homem de negócios, com 130 empregados que contribuem para o seu sucesso; você possui idéias inovadoras, que poderiam fazer todo esse trabalho ser ainda melhor?

Regulamentações... não sei; acho que deve haver é uma mudança na mentalidade. Sou veementemente contra associações; penso que os empregadores é que deveriam cuidar melhor de seu pessoal; sentirem-se responsáveis por ele, como acontece no Japão. Não se conhece associações no Japão porque é normal que os empregadores se responsabilizem por seus empregados até a morte; penso que isso é bom; é como deveria ser.

É uma boa idéia, mas a experiência mostra que não funciona bem assim.

Eu sei; estou consciente disso. Mas é justamente o que tem de ser mudado: a atitude! E então o trabalho se tornaria muito mais agradável. Se eu fosse Primeiro Ministro e tivesse uma chance, (olhando, de lado, para o Sr. Scherf) tentaria tornar isso possível, de forma que as pessoas tivessem mais prazer em seu trabalho.

Como se pode tornar o trabalho mais prazeroso para as pessoas? Inicialmente vamos perguntar ao nosso político o que ele pensa sobre isso. André quer acabar com as associações...

Sr. Scherf: Não, eu não concordo que as associações devam ser extintas; todas as pessoas, especialmente aquelas que não tenham um empregador justo como ele é (dando tapinhas nos ombros de André) devem ter a oportunidade de defenderem-se. Quando os trabalhadores se organizam, estabelecem-se melhores condições para lutarem por seus direitos.

Quando se luta solitariamente, geralmente se está desesperançado, e então o empregador poderia dizer: "Se não estiver satisfeito, que vá embora; há uma porção de gente que adoraria ficar com o seu emprego". As associações podem oferecer alguma proteção coletiva, e por causa disso, eu apoio a existência delas, e sou um associado.

Então, como se pode trazer de volta o sorriso aos rostos dos trabalhadores?

Sr. Scherf: Servir de modelo; não ser um pregador, mas servir de modelo e apenas persuadir as pessoas.

André: E conscientizá-las quanto às suas próprias responsabilidades. Isto é muito importante; todos devem estar conscientes que nada é possível sem o esforço próprio. Em minha orquestra, não tenho substitutos. O trombonista sabe que é somente ele; e então nunca fica doente porque sabe que sem ele não podemos trabalhar. Muitas pessoas pensam que não precisam de mim; que as coisas podem fluir bem, mesmo sem a minha presença.

Com uma orquestra, eu acho que é um pouco diferente. No entanto, como imaginar um prefeito sorridente (Sr. Scherf), indo, com sua bicicleta, ao encontro da enfermeira, depois do seu terceiro turno; do policial depois de suas 36 horas de trabalho; e do médico, depois de uma cirurgia de 8 horas, e 10 horas no serviço de emergência. Como dar a essas pessoas mais satisfação no trabalho?

Sr.Scherf: Mesmo nesses casos, elas querem ver um rosto sorridente; e é exatamente através dessa maneira amigável que se torna possível a aproximação entre as pessoas, mesmo que estejam extenuadas em seu trabalho, porque sabem que precisam dele; precisam sentirem-se aceitas, terem atitudes positivas e motivação para a alegria.

Tonkel: E esta é a tarefa do Gabinete; e é importante que o trabalho diário seja acalentado. Vale elogiar, dizendo: "Você está indo bem!" Perde-se essa oportunidade; o que é uma pena.

Kessler: (dirigindo-se a André) Você disse que é necessário apelar para o sentimento de responsabilidade das pessoas; acho que há carência de educação em nossos dias. Carência de educação em responsabilidade. A cada dia está ficando mais e mais assim: "Que posso ganhar para mim mesmo", ao invés do desejo de trabalhar pela comunidade. Prazer, sim, mas prazer e responsabilidade para com o trabalho devem ser aprendidos.

André: Você observou que fazer música é uma outra questão; naturalmente, é diferente, mas, no entanto, você pode fazer comparações...

Kessler: Sim, mas é por isso que estou falando sobre enfermeiras, policiais e médicos, etc.., porque é um estilo de vida distinto daquele de um ator ou de um músico... Existem diferenças de mentalidade entre os alemães e os holandeses? Pode sentir alguma diferença além da fronteira?

André: Acho que isso deve ser visto do ponto de vista da Europa. Hoje, todo europeu reclama de tudo estando a bordo de seu segundo carro: "Oh, as coisas vão tão mal na Europa"...; tenho dúvidas que isto seja uma realidade.

Então, não há diferença entre a Holanda e a Alemanha.

André: Não, penso que não; acontece assim em toda a Europa. Mas as coisas não estão tão ruins para nós; estão até bem demais. Essa é a minha opinião.

Reclamamos muito?

Sim; diria que sim, com certeza. Quando vejo no supermercado 20 tipos diferentes de batatas fritas, fico pensando: "As coisas não podem estar tão ruins... temos tanta abundância...".

Herbst: Mas você não pode tirar essa conclusão por causa de uma variedade de batatas fritas. Talvez as pessoas estejam tendo dificuldades de outras formas. Possivelmente esteja faltando alguma coisa a mais. Quem sabe não está havendo uma apatia mental?

Kerner: OK,, André depois de ir à América e receber os Grammies; e depois de acabar com as associações; irá oferecer diversão às pessoas no Ano Novo com um concerto especial. A propósito, sempre dizer "Feliz Ano Novo" em ritmo três por quatro.

André: Sim, de novo e de novo; em cada concerto, de novo e de novo.... Fico muito nervoso antes de subir ao palco e ainda tenho aquele medo de palco em cada concerto. As pessoas dizem: "Ora vamos, você sabe o que está fazendo". Mas, o stress permanece até que encontre a minha platéia, e então, como por encanto, desaparece!

Tonkel: Akim estará com vocês no concerto de Ano Novo?

André: Naturalmente que não; ele já estará dormindo a essa hora.

OK, podemos esperar por um grande concerto de Ano Novo com André Rieu e também, já que não é segredo, por um novo CD entitulado "Christmas Around the World".

Muito obrigado, André Rieu..”