Entrevistas

31 - "André Rieu e Akim Camara na TV"

A Ivo Niehe, durante programa na TV holandesa, em 04 de novembro de 2005

Tradução: Ineke Cornelissen/Sonja Harper/Mércia Cosac

“Esta noite, temos a presença de dois violinistas muito especiais em nosso programa: André Rieu, e Akim Camara, de apenas 5 anos de idade.

Inicialmente, o Maestro, em pessoa! Ele é o primeiro cidadão holandês a atingir o primeiro lugar nas paradas de sucesso da música clássica nos Estados Unidos. Seu sucesso no exterior parece não ter fim; é o único verdadeiro astro internacional holandês: André Rieu!

(André entra e cumprimenta a platéia).

Nesse momento, é mostrado um "vídeo-clip" sobre suas turnês, chamando a atenção para alguns dados sobre a empresa de Rieu, tais como seus 120 funcionários, dos quais 70 sempre estão em viagem com ele durante as turnês; desses, 50 são os integrantes da orquestra; a infra-estrutura da empresa, com seus 14 caminhões, 7 ônibus, 2 aviões, etc..; e imagens das turnês através da Europa, Ásia e América.

Esse vídeo, editado especialmente por você, nos dá uma idéia sobre o que está fazendo no exterior. O sucesso é o mesmo em todos os lugares?

Sim, e é muito interessante; todos reagem da mesma forma, não importa se toco para esquimós, sul-americanos ou japoneses. Por isso, sempre digo que a música é universal; meus concertos são iguais em todos os países; a única diferença é que incluímos algumas músicas extras originárias dos países onde estamos nos apresentando, durante os "encores"  (músicas adicionais na parte final dos concertos).

Você está em primeiro lugar nas paradas de música clássica dos EUA. O que isto significa; quantos CDs vendidos; milhares?

Não sei exatamente, mas devem ser dezenas de milhares.

Inacreditável! Você vai conquistando país por país. Trata-se de uma estratégia sua; primeiro aqui; depois ali; mais adiante, o Japão, etc...?

Uma vez um repórter britânico perguntou-me porque eu queria apresentar-me na Inglaterra. Respondi: "Por que não?"

Quero tocar em todos os lugares; é um grande prazer tocar para as pessoas.

Você conta com um enorme circo à sua volta; nós não havíamos nos dado conta disso até ver o seu vídeo!

Sim; quando comecei a tocar violino, aos 5 anos de idade, e, mais tarde, quando já estava no conservatório de música, não podia nunca imaginar que teria um "staff" de 120 funcionários, como tenho agora.

Isto deve trazer-lhe também muitas preocupações....

Estou consciente disso. Sinto uma grande responsabilidade pelo meu pessoal, mas tenho uma natureza otimista; sempre tenho a confiança de que tudo sairá bem no final.

Cento e vinte pessoas; acontecem aí muitos relacionamentos afetivos?

Ah, sim; temos alguns casais... e também muitas crianças.

Esses relacionamentos também terminam?

Não; continuam!

Seu pai era maestro da Orquestra Sinfônica de Limburg; ele já é falecido, mas estaria orgulhoso de você.

Com certeza! Ele acompanhou a primeira fase do meu sucesso; mas no início, quando eu comecei a tocar em casamentos, e outras festas, ele não entendeu: achava que eu estava desperdiçando toda a minha formação na música erudita.

Você recebeu uma educação de nível internacional; e obteve o primeiro lugar de sua classe, em Bruxelas.

Sim; e muitos dos integrantes da minha orquestra tiveram uma educação semelhante.

Muitas pessoas têm a opinião de que você está desrespeitando a música clássica; recebe muitas críticas, e hoje talvez seja até alvo de ciúmes.

Sim; sempre haverá pessoas como estas; mas você já viu alguma estátua erigida em homenagem a algum crítico?

Você costumava tocar valsas; creio que ampliou bastante o seu repertório, pois está tocando cada vez menos e menos valsas. É uma verdade?

Muitas valsas ainda fazem parte dos meus CDs; estamos sempre buscando por novas músicas o tempo todo. Porém, durante os concertos executamos pelo menos 5 ou 6 valsas em cada um deles; chamam-me "Rei da Valsa" ou "O Mel Gibson do Violino". É bom ter esses apelidos!

Ah, eu nunca tinha ouvido este segundo apelido... mas você é mais bonito!

Obrigado; mas ele não consegue tocar violino....

Você possui um antigo Stradivarius, de 1667; é um instrumento único, não é?

Todo Stradivarius é único; este foi o segundo violino fabricado por ele. Na época estava com 23 anos de idade, e sei que estava apaixonado. Sinto isso. Já tive muitos violinos sob o meu queixo, mas com este, senti o amor e a paixão de Antonio Stradivarius. Eu buscava um violino com a voz da Maria Callas: com notas muito altas e também muito baixas. Creio que este é o violino que eu estava à procura.

Quanto tempo dura um Stradivarius?

Para sempre!

Qual foi o seu melhor concerto até agora?

Pode ser uma resposta muito tola, mas gosto de cada um dos meus concertos.

Waldbühne (Berlim) foi especial; Toscana, Maastricht...

Nós não nos apresentávamos em Maastricht havia 17 anos; quando realizamos o concerto "Flying Dutchman", in Kerkrade, (cidade situada na província de Limburg, na Holanda) em 2004, o prefeito de Maastricht ficou enciumado e convidou-me para realizar um concerto lá no ano seguinte; e eu o fiz.

Na Toscana, Itália, escolhi uma pequena cidade chamada Cortona, que fica em uma região muito montanhosa; todo o equipamento teve de ser carregado por nós montanha acima, e creio que Pierre deve ter me "amaldiçoado" bastante.

Você tem fãs em todo o mundo; e eles vieram até Cortona! Ouvi que vieram pessoas até do Alaska e Austrália. São fãs tão fiéis?

Sim; tenho verdadeiros "groupies" ! (fãs que seguem o artista por toda parte, e costumam "pegar no pé")

Homens também?

Sim; também.

E agora vamos conversar sobre aquela apresentação ímpar em Kerkrade, com o garotinho Akim, na época com apenas três anos; como você o encontrou?

Todos os dias recebo correspondências de pais que recomendam suas crianças talentosas; mas esta correspondência, de Berlim, foi diferente. Enviei uma equipe de câmeras para lá e quando retornaram, senti imediatamente que ele era único e especial. Eu o convidei, e duas semanas antes do concerto em Kerkrade, encontrei Akim, seus pais, e sua avó.

Akim tocou para nós, no estúdio, e todos os músicos da orquestra ficaram boquiabertos; e perguntavam: "Como é possível?" Indaguei de Akim se ele gostaria de tocar junto conosco em Kerkrade, e ele disse que esse era seu desejo. Ele adora apresentar-se!

No dia do concerto eu estava muito nervoso, pois não havia como prever o que poderia acontecer. Seriam 18 mil pessoas na platéia; talvez ele ficasse ali no palco, gritando por sua mãe. Mas, ao contrário; você deveria ter visto como ele subiu naquele palco!

Você o ensinou a tocar aquela melodia?

Não, ele toca tudo de cor; tem uma memória fabulosa. Eu nunca tinha visto nada igual; creio que um talento assim aparece somente uma vez na vida.

Esse garoto, o Akim, está aqui.; Akim, onde está você?

(Akim entra, trajando um smoking preto novinho em folha; André vai recebê-lo e o trás para sentar-se; coloca o seu violino sobre a mesa e ajusta o microfone na altura certa para ele).

(Ivo dirige-se a Akim, em alemão):

 Olá, Akim, você está usando um terno novinho em folha?

(Akim acena com a cabeça que sim).

Que idade tem agora?

(Akim mostra os cinco dedos).

Quantas horas por dia você estuda?

(Akim diz que estuda uma hora por dia).

O que você mais gosta de tocar?

Akim: "A mais nova"

Você o chama de Senhor Rieu ou André?

André.

(Akim parece um pouco tímido, e Ivo dirige-se a André)

 "É suficiente estudar somente uma hora por dia?"

Para ele é; e ele adora; não encara como uma obrigação.

É grande a responsabilidade de cuidar de um garoto com um talento desses...

Sei disso; estou consciente da minha responsabilidade. Eu o tirei do anonimato. Depois do concerto de Kerkrade, todos os canais de TV da Alemanha queriam apresentá-lo em seus programas; tivemos de escondê-lo por um período. Esta é a primeira vez que ele vem a um programa de TV, e eu faço isso só por você, Ivo.

Consegui um bom professor para ele, e também alguém que cuidasse de sua educação normal, pois ele tem de permanecer esse bom rapaz que é. Pago por suas lições e o acompanho; estamos em contato toda semana. Sinto-o como uma obrigação; ele tem um talento incrível.

(É mostrado um vídeo-clip sobre o truque que Akim fez com água, durante o concerto em Kerkrade, e Ivo pergunta a Akim quem havia lhe ensinado aquele truque, e Akim responde que foi o Otto.)

André: "Sim, Otto é um homem muito engraçado;

(Otto Walques é um humorista alemão, que tem participado de alguns concertos da JSO)

Ele está sempre contando piadas e fazendo brincadeiras o tempo todo. Otto fez aquele truque nos bastidores, no dia do concerto, e Akim o imitou. Achamos tão engraçado, que resolvemos fazê-lo no palco.

Qual é a origem de Akim?

Ele mora em Berlim; seu pai veio da África, e sua mãe, de Berlim. Juntos, eles fizeram esse garoto maravilhoso!

Akim irá tocar para nós, juntamente com André e sua orquestra. Akim, este é o seu instrumento?

André: "Dei a Akim um violino maior; mas ainda é muito grande para ele. O Akim ainda tem de comer muitas batatas fritas, pois é o que ele gosta!

Nem todos os músicos da orquestra estão aqui, porque o palco de nosso estúdio é muito pequeno....

Ah, sim; estão todos aqui. Nós os esprememos para caberem nesse pequeno palco!

De verdade? Eu não sabia disso; é maravilhoso!

A orquestra completa está aqui esta noite, e eles irão tocar o "Concertino em A mol" para vocês, tendo Akim como solista.

E nos "encores", a orquestra, tendo Akim junto com eles, executa a melodia "Butterfly".

Akim Camara é um pequeno “grande” talento do violino, morador de Berlim, que aos três anos de idade participou do concerto realizado em Kerkrade, Holanda, para um público de 18 mil pessoas, o qual foi filmado e lançado em DVD – “The Flying Dutchman”, em 2004.

Naquele concerto Akim executou, como solista regido por André, o “Concertino G major Op. 11 e o Concertino G-Dur Op. 11, do violinista e compositor alemão Ferdinand Kuechler  (1867-1937).

Kuchler formou-se músico no Conservatório Hoch em Frankfurt, onde permaneceu de 1898 a 1910 como professor de violino.

Trabalhou como violinista solo e também em um quarteto; de 1910 residiu em Basel, Suíça, onde foi diretor de uma escola particular.

De 1927 a 1936 deu aulas no State Conservatory de Leipzig; escreveu textos e partituras para manuais de violino; o seu Manual (em 8 volumes – Editora Hug-Verlag, Zurich) foi até meados dos anos 60 o principal foco da literatura de manuais para violino.

Fonte: Wikipédia