Entrevistas

3 – “André Rieu fala à Revista Playboy"

Entrevista realizada por Willem Baars e Mick Boskarnp, em dezembro de 2000

Tradução: Sonja Harper/MérciaCosac

“O maestro e violinista de sucesso fala sobre a crítica acerca de seu trabalho; sua educação rígida; erotismo; mulheres e fãs que pegam no pé; e também sobre a aura de erotismo que envolve o violino, a felicidade, e suas experiências ruins com as gravadoras.

Há sete anos atrás, como que saído do azul do céu, ele conquistou os corações dos fãs da música popular e também da música clássica.

Rieu (51 anos), chegou, tocou e conquistou com o seu disco "From Holland with Love". A música alegre, em ritmo de valsa, foi um sucesso internacional. Desde então, cada disco de Rieu e sua Orquestra Johann Strauss tem sido um sucesso após o outro nas "hitparades", permanecendo em primeiro lugar por vários meses.

No entanto, esse homem simpático e carismático, nascido em Maastricht, já foi sistematicamente rejeitado pelas gravadoras.

Mas ele foi adiante em sua missão de trazer a música clássica às pessoas comuns, e o tempo provou que ele estava certo. Atualmente é o artista holandês de maior sucesso internacional, como jamais houve outro; é adorado por milhões de pessoas, mas ainda assim, criticado pelos puristas, que têm como norma que não deve haver interferência na música clássica.

Conversamos com Rieu, no "De Residentie" (trata-se de um hotel, localizado na Bélgica) ocasião em que ele provou ser também um maestro da vida, que sabe muito bem o que quer, e o que não quer. Enquanto ele falava à "Playboy", um homem sentado à mesa, próximo dali, não tirava os olhos de um estojo retangular, como se nele estivessem guardadas as jóias da coroa: era um funcionário da empresa de Rieu.

O que aquele homem está fazendo com o estojo?

Elecuida do meu Stradivarius.

Desculpe-me?

Aquele homem cuida do meu Stradivarius; fica de olho nele o tempo todo.

E ele lhe segue como uma sombra?

É necessário, porque sou muito impulsivo e caótico. Antes que tivesse alguém para tomar conta do meu violino, cheguei a esquecê-lo quando de um concerto. Depois de encerrar todos os preparativos para nos apresentarmos, já estava pronto para subir ao palco, já havia redigido o meu pequeno texto de apresentação e trocado de roupa, subi ao palco, e...onde estava o meu violino...? Não havia nenhum violino ali; fiquei branco como um fantasma.

E então?

Eu disse à platéia que algo errado tinha acontecido com o meu violino, e que eu iria iniciar o concerto meia hora mais tarde. Pensei febrilmente no que fazer; chamei um amigo e pedi a ele que me trouxesse o violino o mais rápido possível. Desde então, o fato nunca mais se repetiu.

Como você cuida do seu violino? É como uma criança para você?

Ele vai para a cama comigo! O meu Stradivarius é um instrumento esplêndido; único. Cada violino é único, completamente diferente um do outro. Os violinos não são objetos de produção em série. São peças artesanais, feitas com amor. Você pode me dar dez deles, e ha, ha!... Esta é a razão pela qual é tão difícil a busca pelo violino certo.

Você disse que quando Stradivarius construiu este violino ele estava apaixonado.

Isso mesmo! Ele tinha 22 ou 23 anos de idade na época. É a idade de se estar apaixonado. Este foi um dos primeiros violinos que ele construiu. E eu "ouvi" isso imediatamente ao tocar em suas cordas com o arco.

O que você "ouviu"?

Veja; eu sou um violinista. Não sou um colecionador de antiguidades. Não me interessa se o verniz é o original, ou algo assim. Eu simplesmente toco, ouço e sinto. Eu sinto este violino; é isto que quero dizer. Sinto que ele é o instrumento certo para mim. Você pode comparar com o fato de quando encontramos uma linda mulher pela primeira vez, e vem aquela sensação: "uau!" . É um sentimento como esse.

Nunca vai vendê-lo?

Não penso em vendê-lo, da mesma forma que não penso em vender um outro violino valioso com o qual tive muitas experiências maravilhosas. Talvez algum dia compre um outro, mas por hora, fico com este "harém" , pois o violino é feminino, não se esqueça disso.

Porque o violino é feminino?

Por causa da sua forma (faz o gesto com as mãos). Você o toca, fere as suas cordas com seus dedos, e ele emite o som. Yehudi Menuhin sempre dizia: "Se você não o tocar todos os dias, ele irá embora". E é verdade: é preciso manter um relacionamento com um violino.

Que paixão!

Essa, eu acho, é a minha maior força. Coloco tanta energia e paixão quanto possível em tudo que faço. E tento inovar sempre.

Você não segue uma rotina?

Não; quando algo se torna rotineiro, para mim é impossível prosseguir.

Algumas pessoas não gostam muito dessas inovações; para os críticos, parece até que você reinventou toda a música clássica.

Sempre haverá pessoas que estarão insatisfeitas ao ouvirem meu nome. Os puristas da música clássica dizem sistematicamente que o que eu faço é uma perversidade, e sem valor; mas não é assim.

Você já se chateou muito com isso?

Com certeza; principalmente no início tive muitos problemas para administrar essas críticas. Pensava: "Por que?; o que estou fazendo é bom! Porém, a partir de um certo momento, acostumei-me. Especialmente quando percebi que muitas pessoas escreviam e formavam sua opinião, sem conhecer nada que eu tivesse feito.

Contudo, nos últimos anos isso tem mudado; agora alguns puristas me dizem:"Tenho de admitir que formei minha opinião sobre você sem nunca ter ouvido um de seus CDs, e sem contar que nunca fui a um concerto seu, mas agora, mudei minha opinião; o que você está fazendo é realmente bom".

É porque você passa a imagem de um artista popular?

Passo a imagem de "Rei da Valsa"; e isso é ridículo. Não executo somente valsas, mas eles parecem gostar de pensar assim; então deixe que pensem.

É uma contradição: você é inteiramente moderno, tocando músicas do passado.

O que você diz é muito certo, pois eu tento não olhar uma partitura de um compositor do passado como uma peça de museu; não acho que o meu trabalho seja trazer uma peça de museu novamente à vida. Essa não é a minha tarefa.

Penso que uma partitura é como uma página de um livro; nela existem algumas notas escritas com tinta preta... e só. Se não há vida, não há respiração e músicos entusiásticos que façam alguma coisa com aquele papel, então ele continua sendo somente um papel, com notas pretas escritas.

Já uma pintura é sempre um quadro; você pode pelo menos apreciá-lo. Mas, uma partitura, por si só, é uma coisa morta. Creio que as pessoas que se dedicam a trabalhar sobre elas têm o direito de fazer com que adquiram vida novamente, e se tornem atuais.

Claro que faço isso com extremo cuidado: para incluir o "Bolero", de Ravel, no meu novo CD, eu o reduzi, é verdade, mas eu estava inteiramente consciente da minha responsabilidade com relação ao compositor. Incidentalmente, tudo foi feito de forma legal. Eu fui a primeira pessoa a receber autorização oficial da família de Ravel, e do produtor, para encurtar o "Bolero".

Porque você encurtou o "Bolero"?

Porque hoje em dia vivemos em um mundo muito mais veloz. Na época em que foi escrito não havia rádio, nem televisão, e as pessoas não tinham tanta pressa.

Então você diria que os puristas da música clássica estão um pouco presos ao passado?

É exatamente isso que estou dizendo.

Decididamente, as coisas não estão indo bem no terreno da música clássica.

Não estão indo bem, absolutamente; não estão vendendo nada. No ano passado, foram dispensadas 36 pessoas nas gravadoras Decca e Deutsch.

E qual é a causa?

Penso que é uma história muito complicada, que tem a ver tanto com o lado do mundo da música clássica, quanto com o público. Há um grupo de pessoas, uma espécie de clubinho elitista, que está se auto-asfixiando. Estão tão voltados para si próprios, que não percebem o que está acontecendo à sua volta. Esse mundinho está se tornando tão pequeno, que, em cada cidade, somente cerca de 12 pessoas comprariam um novo lançamento de Beethoven. Acho que a música, incluindo a música clássica, não pode ser submetida a regras nem a regulamentações.

Quantos CDs você já vendeu?

Cerca de 10 milhões.

Isto não o deixa nervoso?

Não... se você está preparado. E eu sempre soube que um dia faria sucesso; sempre tive esse sentimento, mesmo quando ainda tocava para 400 pessoas, com a Maastrichts Salon Orkest, e elas ficavam completamente enlouquecidas.

Porém, você já teve muitas portas fechadas em sua vida.

Já estive em todas as gravadoras, muitas vezes. Eu chegava e dizia: "Aqui estou eu outra vez". Então batiam a porta na minha cara; aqueles mesmos sujeitos de sempre ainda estavam lá.

Considero as gravadoras uma das instituições mais bitoladas do mundo. Eles poderiam ganhar muito mais dinheiro. É ridículo o que aquele homenzinho sempre me dizia: "Não gosto..., valsas? Vá tocá-las para sua vovozinha; vá tocá-las lá em Maastricht."

E assim foi, por muitos anos; e assim é em todos os países. Estou agora, pela primeira vez, no que é chamado "lista de prioridades" em minha gravadora. Significa que alguém decide, em Londres, qual artista terá prioridade para promoção internacional.Não deveria ser assim.

Mas você já está indo bem internacionalmente, não é?

Sim, na Alemanha, França, América, Canadá e América do Sul. No Chile, por exemplo, já tenho 5 discos de platina. Os "Black Street Boys" estão em segundo lugar, e eu estou em primeiro...ha..ha...ha...

Você já está rico?

Expressar isso em termos monetários é muito relativo; a Rainha da Inglaterra, por exemplo, é muito mais rica do que eu.

Mas ela é realmente a única a ter tanto dinheiro?

Ha..ha.. penso que não. Veja, não estou reclamando; mas o que é ser rico? Assino cheques para 120 pessoas; Marjorie e eu fazemos tudo sozinhos; minha esposa e eu reinvestimos tudo na empresa...não me vejo como um homem rico.

O dinheiro é importante para você?

Sim, claro; penso que a liberdade é uma das coisas mais fundamentais para um ser humano. Não somente a liberdade no sentido literal da palavra, mas também a liberdade de pensamento e de ação. Vivemos em uma sociedade onde se pode alcançar essa liberdade através do dinheiro. E é esta a importância que dou ao dinheiro: quero ter e comprar liberdade.

Nenhum Rolls Royce?

Um carro serve para me levar de um ponto A para um ponto B, e de preferência, com um pouco de conforto, porque sou muito ocupado, e se tiver ar condicionado, melhor. Mas isso não tem nada a ver com Rolls Royce. Não sou tão materialista, e não tenho inveja de quem tem um Rolls Royce. A inveja não faz parte de mim: desejo o melhor para todas as pessoas; não me sinto um invejoso.

E também não fico apontando o dedo e me divertindo com aqueles sujeitos das gravadoras que queriam me mandar de volta para Maastricht!

Você teve algum mentor; alguém em quem tenha se inspirado?

Por vários anos, Herman Krebbers foi minha principal fonte de inspiração como violinista. Eu queria ser como ele; um homem fantástico. Leonard Bernstein foi outro a quem sempre admirei, e o que ele realizou também influenciou um pouco o meu estilo. Aliás, Leonard foi, como eu, muito criticado pelos assim denominados puristas porque dançava no palco, e aquilo não era correto, segundo eles. Eu penso que essa era uma atitude fantástica por parte dele, pois ele era autêntico; não estava enganando a ninguém.

Já sentiu ciúmes de violinistas mais habilidosos que você?

Claro que não; cada um tem suas habilidades próprias. Realmente existem violinistas que tocam melhor do que eu, mas tocar violino é apenas parte do que faço. Eu divirto a platéia; conduzo a orquestra; organizo... O violino certamente não é o único item em minha atividade.

Há alguma coisa que você realmente ainda gostaria de fazer?

Gostaria de cantar, mas não consigo. Eu adoraria pegar o microfone e como um Toon Hermans (comediante holandês, que compunha suas próprias canções, e que, também, escreveu vários livros), cantar uma bela canção, com uma letra maravilhosa.

Leonard Bernstein compôs" West Side Story".

Uma peça genial.

Gostaria de compor mais?

Engraçado que você tivesse mencionado isso; comecei a compor, secretamente, em conjunto com meu irmão Jean-Philippe, que tem estado compondo por toda a sua vida, e de repente, tudo foi acontecendo. Compusemos juntos uma valsa, que está em meu último CD; é só um começo, mas virão mais coisas, você verá; é só uma questão de dedicar um pouco mais de tempo....

Você disse, anteriormente, que reinveste todo o seu dinheiro em seu negócio; então trata-se de uma empresa.

São onze empresas, eu acho; no momento, estamos reestruturando toda a organização. Está crescendo tanto que preciso de pessoal novo a todo momento. Estamos contratando dois novos funcionários a cada semana.

Você é um bom empregador?

Penso que sim; pago bem e sou leal. Se obtenho algum lucro, todos têm participação nele. Mas não tolero erros causados por amadorismo, e nem ociosidade ou fofocas; perco logo a paciência, pois não posso admitir que alguém fique mais do que meia hora falando de coisas sem importância.

É o que tanto me surpreende na política desse país: a inacreditável perda de tempo com tantas discussões.

Veja por exemplo, os problemas que temos na área de transportes; com o automóvel - o problema do século. Deveríamos ser capazes de resolver esse problema facilmente, em conjunto; por que não construir vias de alta velocidade? Seria uma solução. Hoje, todos os automóveis alcançam a velocidade de 180 km por hora, mas essa velocidade não é permitida aqui porque os políticos podem não concordar. Logo estaremos parando. Quando ouço algo sobre as discussões acerca da linha Veluwe  (Veluwe é uma área de reserva ecológica na Holanda, já citada na página referente às raízes do André; parece que está sendo planejada a construção de uma auto-estrada passando por dentro dessa reserva, e as discussões vêm se arrastando há muito tempo), que já duram anos, então penso: "acabem com essas discussões, e comecem logo as obras".

Você parece ser do tipo que tem dificuldade em delegar tarefas.

Veja; com estas duas mãos, construí as primeiras cadeiras para a orquestra. Quando se está acostumado a fazer tudo por si só, então delegar tarefas é algo que se tem de aprender a fazer. Dá medo deixar coisas importantes aos cuidados de outra pessoa.

Certamente você vai querer saber por que ajo assim; porque ter a minha própria orquestra.... A resposta é que eu nunca me conformei com o modo como as coisas aconteciam em outras orquestras; eu tinha vontade de mandar parar tudo e dizer: "Gente, façam-no com um pouco mais de sentimento... e com um pouco mais de vida!". E então pensei: " Posso fazê-lo, mas tendo o meu próprio pessoal".

Você queria sua própria marca comercial!

Sim; colocar meu próprio selo em tudo... e deu certo. Depois da minha orquestra, eu quis ter o meu próprio palco, pois os palcos disponíveis não me agradavam.

E então, as coisas começaram a se expandir a partir daí; veio o estúdio, e agora, a Internet.

Tudo vai de vento em popa no momento; não é um pouco monótono e previsível?

Que bobagem! O que é previsível agora? Uma conclusão ridícula... Se você ficar de olhos bem abertos e olhar à sua volta verá que acontecem fatos novos todos os dias. Veja a Internet, por exemplo; se você disser que não precisa da Internet é como se estivesse dizendo que não precisa da eletricidade. Vai administrar à luz de velas. As possibilidades são inimagináveis; atrevo-me a predizer que, em cinco anos, não existirão mais aparelhos de TV.

O que a Internet significa para sua música?

Tenho muitos sonhos e idéias sobre a Internet, e vários de meus funcionários estão dedicando muito de seu tempo a ela neste momento.

E, sabe qual é a graça da Internet? No passado, você tinha o padeiro, ali, na esquina de casa, e ele conhecia os seus fregueses; então veio o Albert Hein (grande rede de mercearias espalhada por toda a Holanda), e todos esses pequenos estabelecimentos desapareceram, e com eles, também, o contato pessoal. Agora, com a Internet, a padaria da esquina está de volta, pois, usando essa moderna tecnologia, posso estar em contato pessoal com um fã, por exemplo, lá no Chile.

Mas você não tem medo de que sua música esteja disponível gratuitamente; que alguém possa simplesmente "baixar" sua música da Internet?

Não tenho receio disso, de forma alguma; melhor ainda, eu a ofereceria gratuitamente. Pode-se copiar CDs ou fitas cassete, mas ainda assim, as pessoas vão querer comprar o mais novo CD. Quando foi lançado o livro usando papel reciclado muita gente pensou que seria o fim das edições luxuosas; mas não foi isso o que aconteceu.

Com todos esses avanços, penso que seria bom que os seus filhos estivessem em uma idade na qual pudessem auxiliá-lo a manter-se atualizado com o topo da tecnologia.

Certamente que eu os ouço também; quando gravamos uma nova fita, sempre chamo meus filhos para ouvi-la. A opinião deles é muito importante para mim.

Eles seguirão os seus passos?

Não tenho a menor idéia; aliás, isso não tem muita importância para mim. Deixo-os livres para decidirem por si próprios. Nossa orientação para as crianças sempre foi:"Rapazes, vocês têm de decidir sobre a sua própria vida; vamos ver o que decidem; nós os amamos, não importa que decisão vocês tomem"

Você não acha que é importante que a dinastia continue?

Pelo amor de Deus, não!

OK, faço música, e isso me deixa feliz; faz parte de mim, e seria maravilhoso se eu pudesse passar isso para eles, mas sem lhes causar quaisquer transtornos.

Não tenho a intenção de forçá-los a nada; e também não acredito em estórias sobre crianças-prodígio, de quem se diz que são capazes de tocar; que são tão hábeis porque são forçadas a estudar dia sim, dia não. Meus filhos tocaram o violino quando ainda eram bem pequenos, e se divertiram bastante com ele; mas logo, um deles não queria mais continuar, e o outro simplesmente quebrou seu violino na cabeça do seu irmãozinho. Depois daquilo, tudo acabou rapidamente, mas eles têm inclinação musical e podem chegar, um dia, ao palco; mas, como e quando, não tenho a menor idéia.

Sua esposa não é somente uma companheira na sua vida, mas também uma parceira nos negócios.

E não é que esta é uma difícil combinação?

Marjorie e eu organizamos tudo juntos, e algumas vezes, fomos penalizados por isso, especialmente após alcançarmos o sucesso. Devido a ele, ficamos com frequência, literalmente longe um do outro; e nesse aspecto, foi bom que o sucesso tivesse acontecido tardiamente. Não gosto nem de pensar o quanto seria difícil se tivesse vendido dez milhões de CDs justamente na fase de maior paixão entre nós. Acho que teríamos nos separado. Mas, foi bom como aconteceu, pois, dessa forma, pudemos administrar as coisas.

Por outro lado, sempre sonhei em estar com uma mulher com a qual eu pudesse construir um negócio; desde que tinha doze anos, já sonhava com uma mulher que trabalhasse junto comigo, e esse sonho tornou-se uma realidade.

Porém, agora que você chegou tão longe, nunca desejou, de vez em quando, largar o negócio de lado, e dedicar-se inteiramente a uma vida onde tivesse mais tempo para conviver com a sua esposa?

Haverá um momento em que essa mudança virá naturalmente; em que estarei fora de todo esse circo à minha volta. Ficarei mais em casa, em Maastricht, e passarei a me dedicar a meu próximo sonho, que é, junto com o meu público, reviver toda a música clássica; gravar toda essa música novamente. Então estarei mais perto de casa, e haverá menos concertos, o que trará um equilíbrio às minhas atividades. Mas, mesmo assim, minha esposa e eu estaremos ocupados com os negócios; quando Marjorie e eu fazemos nossas caminhadas por Pietersburg (parque próximo à residência de André e Marjorie), sempre conversamos sobre a empresa: ambos gostamos disso.

Ela não acha difícil conviver com todas essas atenções sobre você?

Pelo contrário: ela não suporta publicidade; detesta. Uma vez ela deu uma entrevista à imprensa, na Bélgica, e depois disso, nunca mais quis fazê-lo novamente; ela assumiu uma posição radical, dizendo, mais ou menos assim: "Você que tome a frente e faça; vá lá e dê todas aquelas entrevistas, pois eu não tenho obrigação de dar nenhuma entrevista".

Aos doze anos, você já sabia que tipo de mulher queria ter a seu lado; àquela época, já sabia também que queria tornar-se um músico?

Sim; sempre senti que seria assim. Naturalmente eu tinha um pai que era maestro, e que também tinha certas expectativas a esse respeito. Então, simplesmente nunca se pensou em outra alternativa.

Que tipo de criança você era?

Eu não era um garoto perfeito, mas também não era um problema em sala de aula; fui expulso da classe só uma vez, e ainda me orgulho disso. Foi durante uma aula de geografia, se não me engano; comecei a dar trabalho, e acabei sendo mandado para fora da classe.

Um ponto alto da sua infância...

Eu tinha orgulho em bater, nas brigas, mas não era um provocador; colecionava qualquer coisa. Uma vez encontrei um colar, e alguns moleques queriam tirá-lo de mim; lutei como um leão. Eu não era um doce, mas também não era muito agressivo.

Seu pai era muito rígido?

Sim, era bastante rígido; tudo tinha que acontecer exatamente do modo como ele dizia, mas ele não nos batia. Ele era o maestro também em nossa casa. Eu cheguei a achar que o mundo era formado por instituições, ao invés de pessoas; quando criança, pensava também que o mundo era dividido entre músicos, e os outros. Muito mais tarde é que descobri que não era bem assim.

E a sua mãe?

Meus pais seguiam um ao outro, e andavam na mesma linha.

Durante um ano, você tocou na orquestra do seu pai?

Havia um ambiente de discórdia na Orquestra Sinfônica de Limburg, naquela época. Não foi um ano bom; a orquestra queria se livrar do meu pai, porque ele já estava lá havia muito tempo, e representava um padrão antiquado.

Eu ficava literalmente destruído em meio a toda aquela confusão; não era nada agradável. Minha esposa, ao me ver quando chegava em casa, sabia imediatamente se meu pai tinha estado regendo a orquestra.

Ele era um músico de ponta, de coração e de alma, mas era também um homem de tradição. Ele pensava que um músico deveria estar inteiramente dedicado à música, e que a interação com a platéia era irrelevante.

Eu, ao contrário, procuro interagir com a platéia através da música. Sempre vou tentar fazer minha música da melhor forma que puder, mas também quero tirar algo de tudo isso para mim mesmo.

Então não deve ter sido fácil para o seu pai, quando você decidiu criar a orquestra de salão?

Sim; foi difícil para ele aceitar. Saber que eu ia tocar em festas era quase insuportável para ele, que então falava: "O que está acontecendo?" Mas, essa era a maneira que eu tinha escolhido para fazer alguma coisa por mim mesmo, e foi bom que tivesse sido assim.

Seu pai faleceu há três anos atrás, e portanto, não chegou a presenciar o seu sucesso.

Essas discordâncias aconteceram há muito tempo; ele alcançou o início da Johann Strauss Orkest, e tinha respeito por ela.

Ele teria orgulho de você?

Estou certo que sim.

Seus pais o criaram no Catolicismo. Você ainda é religioso?

Eu sempre me irritei com os dogmas da Igreja. Como por exemplo:"Todas as coisas boas vêm do céu, e nós só fazemos maldades aqui em baixo". Então eu pensava: "Rapaz, desse jeito não alcançaremos nenhum progresso". Esse pensamento funcionou como um catalisador para que eu lesse bastante sobre o assunto, e finalmente entendi que o que a Igreja Católica tenta nos dizer não fazia nenhum sentido para mim. Também compreendi que o teatro e a música que temos agora teve a sua origem na igreja; os cânticos: a acústica; e eu trouxe tudo isso comigo desde a infância.

Mas com o que se dizia no púlpito, eu não concordo; sempre aquele dedo sacudindo, e interferindo até nos aspectos mais íntimos da vida, como: "Quantos filhos você tem até agora..". Ora, tem dó!

Você é supersticioso?

Absolutamente não!

Deixe-me fazer a pergunta de outra forma. Você pratica alguns rituais?

Faço sempre uma sesta. Tiro um cochilo... especialmente antes de um concerto. Geralmente em torno das 5 horas da tarde fazemos o teste de som; depois, comemos alguma coisa, e então vou dormir. Funciona sempre. Herdei isto do meu pai.

Você conduz a orquestra como o seu pai fazia?

É completamente diferente; não sou um maestro, vamos dizer assim. Nunca estudei oficialmente regência, mas posso reger. Sinto-me como um regente. Você tem de conduzir o ritmo. Uma orquestra passa a existir quando é integrada por músicos que amam fazer música; e se você os conduz bem, quando os reúne em uma orquestra,apesar de ser um grupo de pessoas com diferentes personalidades, consegue estabelecer uma unidade quando os reúne para tocar em conjunto no palco.

É preciso haver harmonia; como em um bando de pássaros. Quando, de repente, todos voam em várias direções, e as pessoas perguntam:"Como pode acontecer?" Tem a ver com vontade; uma vontade que vem do subconsciente; é algo que se tem de querer fazer em conjunto, e é o que os maestros têm de ser capazes de fazer. Toda a orquestra deve querer trabalhar para você, e você deve ter a habilidade de criar um ambiente no qual todos se sintam bem.

Você conversa muito com os seus músicos?

Não; nós tocamos. Eu ouço tudo e eles sabem disso. Com gestos e olhares posso esclarecer como deve ser feito. Não sou rígido, e também penso que as coisas geralmente são melhor resolvidas com bom humor do que com grosserias.

Então, você é um líder nato?

Sim; acho que não se deve estar à frente de uma orquestra se não se possuir esse instinto de liderança. E também, se não puder perceber todos os sons; ou se não tiver opinião própria.

Pode ser comparado com o trabalho do treinador de um time?

Certamente; deve-se ter a habilidade para ser um líder.

Mas você é um tipo de treinador que também está no jogo. Não está simplesmente trabalhando com a orquestra; está também muito ocupado com a platéia.

Faz parte da minha personalidade: adoro olhar as pessoas nos olhos; interagir com elas. Gosto de brincar com a minha platéia. De outra forma, me sentiria muito solitário no palco. Não consigo me imaginar de pé sobre um tablado à frente de uma orquestra, como em uma ópera. Wagner agia assim. Acho horrível! Não me tornei um músico para tocar sobre um tablado; quero me divertir e divertir minha platéia.

Você gosta de ser o centro das atenções?

Se não gostasse, então não deveria subir ao palco, e certamente, não deveria estar na frente e no centro desse palco. É uma forma de auto-afirmação. Pergunte a qualquer psicólogo. Admito que quando ainda tocava na Orquestra Sinfônica adorava flertar com as moças bonitas na platéia, (acho que ele ainda se comporta dessa forma...), esperando que elas correspondessem, e quando acontecia, a noite ficava muito mais agradável.

O que significa o erotismo para você?

Acho que é o sopro da vida. Por exemplo, você está na companhia de pessoas; de repente, vê uma garota com lindos olhos. Se seus olhares se encontram, para mim, isso já é uma forma de erotismo.

Diz-se que os homens pensam em sexo a todo instante.

Certamente; e eu creio que é assim mesmo, de um modo ou de outro. Mas, penso que isso não tem necessariamente a ver com as mulheres. Para ser estimulado, eu vejo o sexo de uma maneira mais ampla; acho que o olfato tem um papel muito importante; e o tenho muito apurado. Sentir a fragrância de um perfume pode ser suficiente para me estimular; Belas recordações podem aflorar por causa de uma fragrância.

Em alguns perfumes, são usados ingredientes que induzem as pessoas a se atraírem. No mundo animal, isto acontece através dos feromônios.

Uma vez eu ouvi que colocam até fezes nos perfumes (risos).

Senão um perfume seria unidimensional?

Uma vez vi um programa sobre fragrâncias; e nele, dizia-se que as pessoas gostam também de seus próprios odores. É claro que ninguém admitiria isso.

Já que estamos falando de erotismo, o que mais o atrai em uma mulher?

O que seria do mundo sem as mulheres? Só a sua forma já é linda. Mas, o que mais me atrai em uma mulher, especificamente... é difícil dizer. Pode ser uma questão de pele; ou como eu disse antes, uma fragrância... Quando estou tocando uma melodia romântica, e acontece de olhar para o rosto de uma mulher... e ela sorrir... o que mais se pode desejar?

Sexo, talvez?

Sigo aquele ditado: "Você pode sentir fome em qualquer lugar, mas vá sempre comer em casa".

Você tem fãs que pegam no seu pé?

Sim; há alguns sim, mas não é tão ruim. Era pior no início, mas é possível que naquela época eu não estivesse preparado para lidar com eles. É preciso aprender a lidar; é mais ou menos como um cão: se ele sente que alguém está com medo dele, então ele ataca. Tive de construir uma cerca em volta de minha casa para ter a certeza de que não seríamos importunados; às vezes tocavam a campainha da porta de minha casa e quando víamos, já estavam entrando pelo hall.

Mas, muitas tentações vêm até você...

É sempre a mesma coisa em qualquer lugar; uma linda mulher é uma linda mulher; mas, como já disse: comer, sempre em casa.

O amor de um homem passa literalmente por seu estômago?

Lembro-me que há muito tempo atrás, quando Marjorie e eu ainda vivíamos em um modesto apartamento, cheguei em casa, vindo do trabalho. Não possuíamos muita coisa naquela época, mas tínhamos uma sacada de 1 metro por 1 metro, onde colocamos uma mesinha numa das extremidades. Marjorie tinha preparado uma salada de batatas, e nós íamos comer só essa salada e um hot-dog, e tomar uma cerveja; não me lembro de ter estado mais feliz do que naquele momento.

Onde gostaria de estar daqui a vinte anos?

Não sei, e estou feliz por não saber. Contudo, espero que ainda esteja fazendo música, porque acho que a música nos proporciona uma oportunidade maravilhosa para sair e ter contato com as pessoas. Espero estar ainda com saúde, pois penso que a saúde é tudo. Tudo pode acontecer, mas, Graças a Deus, nunca fico doente.

Suponha que você fique com artrite; você fez seguro de suas mãos?

Não há seguradora que pague o que preciso todos os meses. Quando digo que sou um músico, a companhia de seguros diz: "Não fazemos este tipo de seguro". Também não tenho um substituto, e tampouco há substitutos para os membros da orquestra.

Então, se alguém ficar doente...

Ninguém nunca fica doente; talvez porque eu nunca fique. Provavelmente eu projete isso para eles. Eles sobem ao palco fungando e mancando, porque querem se apresentar; e isso é maravilhoso. Estou muito orgulhoso por isso; a ausência por motivo de doença é praticamente zero.

Para os padrões holandeses, são índices sem precedentes de satisfação no trabalho.

Recentemente tem havido muito diálogo com as associações. Não sou contra, mas acho que não devem exagerar. Desculpe-me, mas as condições de trabalho em nosso país são muito boas. É o único país em todo o mundo, onde se pode faltar por motivo de doença, sem dar explicações. O empregador, legalmente, não pode nem ao menos perguntar o que há de errado. Acho isso ridículo! Eu pago o salário de todos, e se alguém diz que não vem trabalhar, quero saber a razão.

Como deseja ser lembrado?

Não gosto de pensar sobre quando não estiver mais aqui; talvez...como alguém que fez muita música e que fez muitas pessoas felizes com sua música....????”