Entrevistas

27 - “O astro violinista André Rieu"

Dezembro de 2003

Tradução: Helma Bauer/Sonja Harper/MérciaCosac

“Sr Rieu,em 18 de dezembro, você estará apresentando-se no programa Jose Carreras-Gala, levado ao ar pelo canal de TV ARD. Você já vem apoiando aquela ONG por muitos anos; considera esse apoio como um compromisso, por ser uma pessoa de projeção?

A palavra compromisso soa como uma obrigação; mas dou esse apoio de coração, pois é preciso haver solidariedade entre as pessoas. Eu o faço espontaneamente, e estou feliz por poder ajudar.

O concerto em benefício das vítimas da inundação foi sugestão minha, e estou sempre envolvido em ações desse tipo por trás das cenas. Tenho sido abençoado em minha vida, especialmente nos últimos 25 anos, e quero fazer algo pelas outras pessoas; porém não é necessário anunciar isso aos quatro ventos.

Agora que está no topo de seu sucesso, ainda tem que beliscar-se a cada manhã para entendê-lo?

Iniciei minha carreira há 25 anos, e durante todo esse tempo, muito importante para mim, pude formar uma unidade em minha orquestra; realmente somos um grupo muito unido. Assim, pudemos iniciar o verdadeiro trabalho verdadeiro: viajar pelo mundo inteiro fazendo música. Meu sonho tornou-se realidade; criei uma base sólida, e agora, começamos com o trabalho real. Não estou no zênite, mas apenas iniciando.

De quantos empregados você dispõe?

Cerca de 120; e conheço cada um deles pelo nome.

Como se descreve como patrão?

Sou uma pessoa muito aberta; tento tratar meus empregados de forma justa e leal; não me vejo como um patrão, ou um comandante. A orquestra e o pessoal de apoio sabem o que quero; sou um perfeccionista e tento evitar erros, mas não sou temperamental ou agressivo. Se alguém comete um erro, merece uma segunda chance; as pessoas devem gostar de seu trabalho. Esforço-me para manter um ambiente agradável tanto na orquestra como na empresa; porém exijo dedicação por parte do meu pessoal: não preciso de pessoas que não gostem de trabalhar.

Você está consciente da sua responsabilidade?

Claro que sim! Sou responsável por meus empregados e suas famílias. Ás vezes, sinto o peso dessa responsabilidade, e preocupo-me; espero que não fique seriamente doente, ou que algo me aconteça. Tenho uma atitude positiva que me ajuda a prosseguir; sempre penso de forma positiva.

Já está no "show-business" por 25 anos; alguma coisa mudou em você?

Eu não mudei; as circunstâncias é que mudaram. As salas de concerto são maiores, e a responsabilidade também, mas continuo a mesma pessoa de sempre.

Você sai em férias?

Raramente. Sou um "workaholic"; não fui feito para ficar ocioso.

Seus empregados algumas vezes o vêem em trajes informais?

Nunca. Sempre estou vestido de forma apropriada; não gosto do estilo informal: em casa, também. Visto terno e gravata; é como se fosse a minha segunda pele. Gosto desse estilo, e o herdei de meu pai; sinto-me confortável assim: gosto de vestir-me bem.

Soa um pouco fútil.

Não sou uma pessoa fútil; apenas sinto-me bem com as roupas que uso.

Você tinge seus cabelos?

Não; não tenho problemas por estar envelhecendo.

Compra suas roupas nas lojas?

Compro uma parte nas lojas, e a outra é confeccionada por um alfaiate; sou assim; não desempenho um papel. Gosto de tecidos; visto roupas de "griffe". Minha irmã age justamente ao contrário; ela gosta do estilo casual, mas eu prefiro o estilo tradicional.

Quem escolhe suas gravatas?

Eu mesmo; e também as camisas e os ternos. Como detesto estar fazendo compras, então faço isso duas ou três vezes por ano. Algumas vezes minha esposa me dá alguns conselhos, como: "Esta gravata não combina com este terno; ou "Este terno não fica bem". Mas eu decido o que vou vestir ou não.

Algumas vezes sente-se manipulado?

Não, não toleraria ser manipulado; não sou um marionete: decido por mim mesmo. Um simples compromisso só é agendado depois que sou consultado; isso é importante para mim, porque trata-se da minha vida.

Quanto tempo você dedica aos amigos, à família... à sua vida particular?

Meu trabalho preenche todo o meu tempo; passo muito tempo com a orquestra e com os meus empregados, mas sempre reservo algum tempo para os bons amigos antigos. Encontramo-nos em Maastricht; bebemos vinho, e conversamos. Isso é muito importante para mim; preciso desses encontros. Gostaria conversar com tantas pessoas quanto possível, e, naturalmente, continuar em contato com as pessoas que já conheço.

Tem amigos no "show-business"?

Esta é uma pergunta difícil; conheço muitas pessoas do "show-business", mas não tenho amigos nesse ambiente. É sempre muito difícil, em meio à correria das turnês; e é muito difícil fazer amizades verdadeiras.

Quando não se sente bem, por quem você chama?

Chamo minha esposa, e tenho um grupo de pessoas que está sempre à minha disposição, se houver necessidade. São pessoas amigas que posso chamar a qualquer momento; preciso de pessoas que me tratem criticamente e me digam a verdade.

Alguma vez já sentiu-se incompreendido?

Quase sempre; ninguém me conhece de verdade. Sou sempre visto de um modo equivocado pelo público; rotulado de muitas coisas que me chateiam. Sou uma pessoa inteiramente concentrada em minha música; executo minha tarefa com gratidão e vivo minha vida em circunstâncias afortunadas. Não compreendo porque não sou aceito.

Os rumores sobre o seu casamento com a Marjorie o aborrecem?

Damos risadas das especulações sobre o nosso casamento todos os dias.

Sua esposa realmente consegue rir de tais rumores?

Algumas vezes, certas reportagens a deixam triste; ela é obrigada a aceitar essas mentiras apenas porque não deseja estar à vista do público. Nosso acordo é muito claro: eu sou a pessoa pública na família; sou aquele que aparece no palco e minhas fotos são publicadas em todo lugar. Minha esposa quer permanecer anônima; ela não gosta da publicidade em torno de si e gosta de ir às compras sem atrair muita atenção.

Quando lemos juntos nos jornais especulações como: "Ela está morta; é doente mental; ou tem uma doença séria", ficamos bastante deprimidos; mas ela está viva; está bem de saúde; e é a pessoa mais importante da minha vida

E... só para deixar bem claro: eu nunca tive uma relação extra-conjugal!

Como se mantêm em contato com sua esposa?

Estamos sempre em contato, via ISMS, e-mail, ou por telefone; comunicamo-nos muitas vezes assim. Marjorie acompanha a mídia moderna sem problemas; ela faz compras pela Internet: CDs... e tudo o mais; ela adapta-se muito bem às novas tecnologias.

Você é um preguiçoso?

Não; nunca durmo tarde. Estou sempre de pé às 7 horas da manhã; não é um ritual estabelecido, mas não nasci para ser preguiçoso.

Se realmente quisesse ficar longe de tudo, para onde iria?

Não saímos de férias; não damos importância a isso. De vez em quando, vamos a Roma por 3 ou 4 dias; é uma cidade fascinante: nós dois gostamos de lá.

A cidade do amor eterno....

Esta é a razão pela qual gostamos de lá. É uma cidade incrível; podemos andar horas pela cidade; sentarmos nos cafés...gostamos verdadeiramente de lá.

Você e sua esposa tomam o café da manhã juntos?

Sempre. É um hábito nosso; o começo do nosso dia; precisamos desse tempo para nós, sem qualquer tipo de ajuda, em casa. Então fazemos planos sobre o futuro; sonhamos; conversamos..... É por isso que é tão importante acordar em minha própria cama, depois de cada concerto.

Vocês dormem em camas separadas?

Não, Marjorie e eu dormimos no mesmo quarto e na mesma cama.

Quantos empregados domésticos vocês têm?

Temos somente uma faxineira; fazemos o resto pessoalmente...cozinhar.... fazer compras....

Você cozinha juntamente com sua esposa?

Gosto de cozinhar; é uma forma de relaxar. Ficamos na cozinha... preparo meu pão com manteiga... somos pessoas monotonamente normais.

Incomoda-lhe que o público tenha uma imagem diferente de você?

Sim, porque não faz sentido. Mas, faz parte do jogo da mídia; sou uma pessoa inteiramente comum. Sinto muito, mas não sou uma espécie de herói sensual...tenho que desapontá-los.

Devendo milhões de dólares?

Sou um homem de negócios e invisto no futuro; todo mundo tem dívidas. compra-se uma casa ou um carro a prestação. Tenho 120 empregados; então tenho muitas dívidas.

Quem cuida das suas finanças?

Eu faço um resumo delas, junto com minha esposa e alguns auxiliares; é uma questão de confiança, e eu já tive várias experiências negativas no passado. Maus assessores custaram-me muito dinheiro. Portanto, sou grato que minha esposa e eu agora tomamos as nossas próprias decisões.

Quando está em viagem, paga as despesas em dinheiro vivo, ou com cartão de crédito?

Nunca faço pagamentos; essa tarefa pertence ao meu assistente pessoal ou ao meu motorista; não tenho nem carteira.

Sabe quanto ganha?

Posso lhe dizer isso somente daqui a dois ou três meses; tenho de esperar pela contabilidade e pelo levantamento das receitas e despesas. Não tenho um salário mensal; meus lucros vêm do que ganho.

Paga o seu próprio salário?

Sim, mas somente para fins contábeis; para efeito de documentação; não quantifico o meu salário; fico feliz quando posso fazer o meu trabalho sem preocupações.

Ouve seus próprios CDs?

Não... nunca.

Tem um diário?

Não, nunca me interessei por isso; não gostaria de documentar minha vida diariamente. Há momentos importantes, que estarão sempre em minha memória e em meu coração, mas não gostaria de tê-los anotados em um diário. Também não tenho planos de escrever uma biografia; quero somente fazer música e não me preocupar com outras coisas. Acho que a minha vida não tem nada de especial.

Sua esposa comunica-se com você antes ou depois dos seus concertos?

Antes dos concertos preciso descansar; nós nos comunicamos, por telefone, geralmente depois dos concertos.

Ela assiste aos seus concertos?

Naturalmente que sim; não é sempre, mas ela assiste regularmente aos meus concertos. Ela é uma crítica muito importante para mim; presta muita atenção aos menores detalhes. Levo sempre uma foto dela dentro do estojo do meu violino.

O que sente por seu violino?

Um grande amor; sou um afortunado por ser capaz de tocar esse instrumento; este violino foi fabricado em 1667, e tenho muito respeito por ele: é uma peça histórica.

Quanto ele vale?

O valor é relativo; nós é que estabelecemos os valores do momento. Para mim, o valor deste violino é sentimental; ele tem uma história; já foi tocado por tantos artistas; passou por tantas guerras.... muita historia realmente, e tudo isso compõe o seu valor real.

Ele está sempre junto a você?

Sempre; levo-o para o meu quarto comigo... junto com a minha esposa.

Quem será o herdeiro dele?

Ainda não pensei sobre isso. Mais tarde, quando não puder mais tocá-lo, então o passarei adiante; serei obrigado a fazê-lo. Este instrumento é muito precioso para ficar trancado a sete chaves.

Seus pais ainda são vivos?

Meu pai faleceu em 1992, mas minha mãe está viva ainda; ela vive em Maastricht e me guia em meu caminho. Sou muito grato a meus pais pela educação e apoio que me deram. Sem meus pais, eu não teria encontrado o caminho em que estou agora. Meus pais criaram-me com muita liberalidade; nunca me pressionaram. Nunca tive de me submeter a seus desejos, e isto me fez como sou hoje.

Qual é o papel de sua esposa no seu sucesso?

Os pais dela eram judeus; seu pai teve de sair da Alemanha e só pode trazer junto uma caixa com seus discos. Discos antigos, com música dos anos 20 e 30: a música popular da época. Minha esposa trouxe esse tipo de música, mais leve, para minha vida; serei eternamente grato a ela por isso.

Sua esposa é judia?

Ela é em parte... mas não o pratica como sua crença.

Você é um homem religioso?

Não acredito em religiões organizadas; acredito nas pessoas, que deveriam assumir mais suas responsabilidades e não ficarem sempre acreditando em milagres vindos do alto. Eu cresci na Igreja Católica e sou grato por essa experiência; para mim, em criança, não havia coisa mais bonita do que a missa católica: era uma cerimônia grandiosa. Gosto de ir à igreja para meditar, mas não para ouvir sermões.

Suas mãos têm seguro?

Não, pois a empresa de seguros não seguraria meus empregados; todas elas recusaram-se a fazê-lo. Seria preciso uma quantia enorme para cobrir as despesas com os meus empregados.

Especula-se muito...portanto, a pergunta: " Seu casamento está firme ?"

Sem dúvida!

Quando aconteceu a última crise no lar dos Rieu?

Acredite ou não, nunca tivemos uma crise de verdade; fomos feitos um para o outro, e nos complementamos mutuamente. Não posso nem imaginar uma separação de minha esposa; nós dois formamos uma unidade, e precisamos um do outro.

O Natal logo estará aí; como você o celebra?

Nós o celebramos em casa, com os rituais típicos: um grande jantar, árvore de Natal, etc. Fico feliz que a família esteja reunida nesses dias.

De quantos dias é a sua folga para o Natal?

Três dias...então, tenho realmente que aproveitá-lo.

Já comprou os presentes de Natal, para sua esposa, e para sua família?

Não, ainda não; vou fazê-lo nos dias de folga. Já sei o que vou comprar; sei muito bem do que minha esposa gosta ou não gosta.

Que presente dará à sua esposa?

É segredo.

Lembra-se da sua primeira namorada?

Eu era muito jovem... e a encontrei algum tempo depois; seríamos um casal errado. Era um amor de ilusão... nada sério; eu vivia apaixonado.

Hoje é diferente?

Sou fiel à minha esposa.

Você é um mulherengo?

Sou muito tímido, envergonhado mesmo; sem meu violino, não me sinto auto-confiante. Não consigo integrar-me a um grupo grande pessoas com facilidade, e ficar papeando; simplesmente não consigo. No palco sinto-me auto-confiante e seguro porque minha orquestra e meu violino estão comigo.

Você está casado com a Marjorie desde 1975; como se conheceram?

Ela estudava no mesmo colégio que a minha irmã; eu tinha 11 anos e ela 13, quando nos encontramos pela primeira vez. Era uma festa de São Nicolau, que é, tradicionalmente, celebrada na Holanda em 05 de dezembro. Lá estavam cerca de 30 garotas, mas só tive olhos para ela; só ela me interessava... me fascinava; nunca a perdi de vista: desde aquele dia, estava sempre a par do seu endereço.

Quando foi a última vez que a desapontou?

Nunca a desapontei; nunca a feri. Graças a Deus, coisas como essas jamais aconteceram; ela sempre pode contar comigo.

Já esqueceu o seu aniversário de casamento alguma vez?

Sempre esqueço; todo ano. Mas ela não fica zangada comigo; não é preciso um dia especial para ser lembrado. Já estamos casados há 29 anos, e sou grato por cada dia.

É tão grato, que nem usa uma aliança?

Sim, eu uso; tenho-a em uma corrente em meu pescoço... aqui, você pode ver....mas não consigo tocar com um anel em minha mão.

Sua esposa usa a sua aliança?

Sim, em sua mão.

Muito obrigado pela entrevista.”