Entrevistas

22 - “André Rieu com J. B. Kerner - 2002"

Programa do canal de TV alemão ZDF, em 31 de outubro de 2002.

Tradução: Sonja Harper/MérciaCosac

“Ele, provavelmente, pode não ser chamado mais de "Rei da Valsa" ou de "O violinista milagroso", mas esses títulos ainda lhe são perfeitamente aplicáveis; as pessoas continuam admirando-o pela música que ele faz. A última vez em que esteve neste programa, ele ainda não havia se apresentado no Japão, e não havia mostrado ao público japonês que a sua música seria do gosto deles; agora ele acaba de voltar de uma turnê àquele país, onde foi muitíssimo bem recebido; e nos contará tudo pessoalmente.

Bem-vindo, André Rieu! Por quanto tempo esteve em turnê?

Duas semanas, responde em japonês.

E foi badalado em todos os lugares; portanto, as palavras que usei na introdução ainda lhe são inteiramente aplicáveis?

Sim, você está correto; e foi muito agradável.

Porque os japoneses ainda têm dificuldades com as valsas?

Eles, absolutamente não conseguem dançar valsas; é inacreditável. Mas, eles esforçam-se para isso; e nos diziam: "Somos muito tímidos e não conseguimos nos descontrair". Mas, paradoxalmente, nunca tive uma platéia tão entusiástica.

No início, para tentar descontrair-se, dão-se os braços e ficam balançando de um lado para o outro, ao ritmo da música.

Sim, e acabam descontraindo-se; não apenas para dançar as valsas, mas para acompanhar todas as músicas. Por exemplo, a última música que tocamos foi uma miscelânea que criei; a platéia européia já a conhece.Nós a denominamos de "Rock no Tirol"; é uma miscelânea que combina música tirolesa com o "Rock and Roll". Você pode imaginar uma coisa dessas no Japão?

Difícil de imaginar...como os japoneses se comportariam; como foi lá? Creio que não ficaram quietos em suas poltronas.

Não, eles choravam. e riam, e ficavam muito entusiasmados; nós nos surpreendemos muito com toda aquela reação; foi inacreditável.

Tenho pensado sobre esta questão desde o início de nossa conversa; porque os japoneses não conseguem dançar a valsa?

Não sei lhe dizer; simplesmente não conseguem.

Eles não conseguiam jogar golfe; no entanto aprenderam. Não conseguem dançar, mesmo?

Não, acho que vou ter de ensiná-los; definitivamente: não conseguem.

Deve ter sido surpreendente ver essa reação naquele país, mesmo para alguém acostumado a lotar concertos, e às platéias entusiásticas. Se não me engano, é sempre assim em qualquer lugar.

Você observou muito bem. Aconteceu no Japão também; isto é absolutamente verdadeiro. Descobri que os japoneses realmente não são tão diferentes; há diferenças, é claro. A língua, naturalmente, é completamente diferente. Aliás, estou aprendendo o Japonês; quero aprender. Mas, dessa vez tive de usar um intérprete.

O diálogo com a platéia entre uma música e outra é uma parte essencial em seus concertos; você anuncia, explica e descreve cada música.

Sim; é para descontrair a platéia; relaxar aquela atmosfera pesada normalmente relacionada à música clássica; e isto realmente foi um bastante difícil no Japão. Levei um dia inteiro com o intérprete para tentar explicar a ele o que eu queria transmitir ao público; foi bastante trabalhoso, pois ele não entendia o que eu queria dizer. Depois de várias tentativas finalmente conseguimos nos entender. Porém, mais tarde, ouvi de outros intérpretes que uma grande parte do humor que tentei transmitir simplesmente não aconteceu. Por isso quero tentar comunicar-me com a platéia, diretamente, em sua própria língua.

Você pretende aprender o japonês seriamente?

Sim, certamente.

E quem pretende contratar como professor?

Durante a turnê pela América, comprei um programa de computador, com o qual, posso estudar a língua japonesa; já estou no segundo CD, e fazendo algum progresso, mas bem devagar. Estou pensando em contratar um professor para aulas diárias, de uma hora.

Para haver maior interação com os japoneses?

Sim.

Acredito que o público deve ficar muito impressionado, ao ouvi-lo em sua língua.

Já consigo falar algumas frases.

É verdade que você é reconhecido nas ruas de Tóquio?

Sim.

Então ficou mais difícil sair do hotel?

Sim, mas ainda não é tão ruim, e é bom saber que estou sendo reconhecido; funciona.

Sua esposa os acompanhou ao Japão?

Não, ela não gosta de voar; e então, com as viagens de avião até o Japão...

Entendo, e além do mais, vocês ainda tiveram de fazer uma parte do percurso em um pequeno barco, se estou bem informado. Não alcançam todos os lugares viajando somente de avião. Isso quer dizer que ela não os acompanha em suas grandes turnês?

Não, porém quando nos apresentamos em Dortmund ou em Colônia, ela vem conosco. Como moramos em Maastricht, ela vem de carro.

Vocês trabalham em conjunto?

Sim, fazemos tudo em conjunto; não de uma forma superficial, mas muito estreitamente.

Ela é a sua empresária?

Ela não é mais exatamente minha empresária, mas continuamos a trabalhar em conjunto. Ela era minha empresária quando nossa atividade ainda era muito restrita. Agora, que a empresa cresceu tanto, ela atua mais nos bastidores, mas sempre em conjunto comigo. Ela participa quando traçamos as grandes linhas; as novas idéias; os novos programas para os concertos; certamente ela está envolvida em tudo. Tive uma formação muito clássica; fui criado com Bach, Beethoven e Rachmaninov; Marjorie ensinou-me sobre o lado leve da música clássica.

Então ela está, em grande parte, por trás do seu sucesso?

Sim, com certeza.

Além da sua esposa, parece que toda a família está envolvida na produtora dos Rieu; até um dos seus filhos trabalha na empresa.

Sim, meu filho mais novo é o meu gerente de produção; acho que é o mais jovem gerente de produção em todo o mundo.

Qual é a idade dele?

Vinte e um.

E ele faz um bom trabalho?

Sim, fantástico!

Ele tem um patrão difícil?

Sim, mas ele é muito competente e fiel.

O outro filho irá se juntar a vocês depois dos estudos?

Quem sabe; ele conhece bastante de música, e estuda História da Arte. É interessado em tudo que se relaciona com a música; e ele a vê de um ponto de vista mais científico, e eu a sinto mais com o coração.

E assim, viemos a conhecer mais sobre Rieu e seus concertos. Já sabemos também quanto sucesso ele atingiu, e como tantas pessoas o admiram. Porém, para entender como funciona a sua empresa, precisamos também entender o que acontece nos bastidores; todos esses músicos são contratados por você?

Sim.

Então é como uma empresa de entretenimento?

Sim, todos eles são meus empregados. Na Holanda há uma lei, aprovada há dois anos atrás, eu acho. Antes dessa lei, os músicos eram todos "free-lancers". Só era preciso serem consultados a cada ano; sempre confiamos uns nos outros. E então veio essa lei: a contratação tornou-se obrigatória; e então foi o que passou a ser feito.

Quantos são?

Quarenta e cinco.

Existe algum comitê trabalhista nas empresas Rieu?

Não, certamente que não; não concordo com isso.

Na Alemanha, não importa se o empregador está de acordo ou não....

Eu sei, mas não quero tais comitês na minha empresa; penso que é uma bobagem.

Transmitimos para toda a União Européia; talvez eles estejam assistindo.

Sou inteiramente transparente quanto ao que julgo que seja ruim; sou generoso com o meu pessoal, e eles correspondem. Cuidarei deles até o fim de suas vidas, e da minha. A propósito, também é assim no Japão; lá não existem associações de classe, ou comitês trabalhistas, e tudo funciona muito bem.

Sim, desde que tudo funcione bem, naturalmente que é boa esse tipo de regra, mas o que aconteceria se passasse a não funcionar mais?

Porque não funcionaria mais; funciona bem! Quando estivemos no Japão, não houve um segundo sequer de tensão ou discórdia; foi fantástico. Não compreendo porque devo estar obrigado a me reunir com um comitê trabalhista todo mês; penso 20 anos à frente, porque é essencial pensar no futuro.

E, se depois de decidir algo para os próximos 5 anos, resolver que não quer mais assim, ou dizer: "Não quero mais fazer isto; vou parar"?

Pretendo viver até os 120 anos; estou com 53. Quero continuar por muito tempo ainda, provavelmente mais do que o meu pessoal.

Mas se você expressa a sua opinião tão abertamente, pode ser que receba alguma correspondência da União Trabalhista alemã, ou da holandesa, uma vez que os dois países têm legislações semelhantes.

Estou consciente disso.

Eu gostaria muito de entender como funciona essa empresa. Ouvi que há algo em comum entre Michael Schumacher e você. Não sei se é verdadeiro, mas você pode me explicar.

Não tenho uma Ferrari.

Mas você tem um ônibus com equipamentos para ginástica.

Correto; e você, tem um também?

Sim...

Hey!

Não sei quem comprou primeiro. O ônibus sempre os acompanha? Que tipo de equipamento vocês têm?

Duas esteiras...

Duas! Então pode-se até correr?

Sim, exatamente. Foi feito para mim, mas qualquer um pode utilizar. Eu não toquei no assunto, e também não discuti previamente com o comitê trabalhista (risos); simplesmente trouxe o ônibus. A primeira vez em que apareci em trajes para ginástica, todo mundo ficou surpreso: "O que está acontecendo...?" Uma semana depois, todos já estavam se exercitando.

Então esse ônibus adaptado para "fitness" é aberto aos seus empregados?

Sim, exatamente; e é inacreditável. É muito útil nas viagens, o que é ótimo. Tenho um programa de exercícios para fazer em casa, mas quando estamos em viagem, e nos apresentamos em 100, 150 concertos, não é possível cumprir um programa como aquele. Nós o utilizamos também durante a turnê pela América. No Japão, utilizamos um outro ônibus, pois lá tudo é menor.

As esteiras são um pouco menores, mas eles também as têm, naturalmente. Bem.. você esteve trabalhando como ator, e o filme será apresentado no canal 2 da TV Alemã.

É verdade; já tinha até me esquecido disso.

Foi filmado com antecedência, mas será transmitido no período do Natal, e a filmagem foi feita em um navio dos sonhos.

Sim.

Apresentaremos um pequeno vídeo-clipe agora.

(É mostrado um pequeno clipe do programa)

Quero perguntar ao Sr Fuchsberger se ele aprovou.

(Joachim Fuchsberger é um ator alemão muito conhecido;responde que foi muito bom para o navio dos sonhos)

Oh, por favor...uma série de muito sucesso... (risos), mas foi divertido atuar.

Um "bestseller" do cinema. Quando tivemos as inundações aqui na Alemanha, no início deste ano, muitas pessoas reagiram com sinceridade e calor; as pessoas foram muito generosas umas com as outras; foi lamentável que ocorresse um desastre como aquele; você é um cidadão holandês, mas isso não impediu que ajudasse bastante as vítimas alemãs dessa inundação. Como aconteceu, e porque você decidiu ajudar?

Naquela época estávamos em uma turnê pela Alemanha; todos os dias nos apresentávamos para o público alemão enquanto à nossa volta estavam acontecendo aqueles fatos terríveis. Estávamos voltando para casa, em nosso ônibus, e então os meus músicos comentaram que gostariam também de fazer alguma coisa para ajudar as vítimas da inundação. Em seguida, entrei em contato com o Canal 2 da TV Alemã e lhes disse que gostaria de realizar um concerto beneficente.

Você realizou um grande concerto de gala, com muito sucesso.

Sim, em uma semana estava tudo pronto para a apresentação.

Eles arrecadaram um bom dinheiro devido ao concerto, que foi maravilhoso; você mesmo escreveu uma canção ou compôs algo especialmente para a ocasião.

A melodia já estava em minha mente.

Chamei o meu irmão Jean-Philippe naquela mesma noite, uma vez que sempre compomos juntos; fomos imediatamente para o estúdio e colocamos a música no papel. E foi essa composição que executamos, pela primeira vez, durante a transmissão desse concerto beneficente.

O "TV Garden" foi a ambientação escolhida para o concerto.

Tenho de confessar: foi um momento de muita emoção.

Vamos ouvir rapidamente.

(Mostra-se um "videoclip" da melodia "Lost Heroes", executada durante o concerto)

A melodia que você já tinha em mente foi o "gatilho"?

Exatamente; a melodia já estava lá... vagamente; então colocamos nossas cabeças para trabalhar em conjunto, e sob a emoção dos terríveis acontecimentos que presenciamos durante a ocorrência das inundações, dissemos: é esta.

Um belo gesto; e o sucesso foi enorme. Por isso estamos muito contentes em voltar a este assunto; agradecemos de coração a você, especialmente em nome das pessoas que receberam os donativos, e também agradeço muitíssimo por esta conversa.

E gostaria de perguntar: "Essa composição fará parte do novo CD?".

Creio que ela está no CD.

Já está no CD, não é? E quando ele será lançado? Falaremos sobre ele novamente, pois assim, mais pessoas poderão comprá-lo.

Será lançado na segunda-feira, 04 de novembro.

(O celular toca.)

O que foi isto?

Meu telefone.

Você não havia desligado seu celular?

Não; sinto muito.

(O telefone continua tocando insistentemente.)

Que som é este, nas chamadas?

Quem chamou?

Não sei; desliguei.

Talvez chamem novamente; era um toque suave, como aqueles dos telefones da década de 50

Obrigado por sua visita, André Rieu.”