Entrevistas

18 - "André Rieu, sempre apaixonado"

Ao jornal "holandes "De Telegraaf" - 18 de dezembro 2005

Tradução: Ineke Cornelissen/Sonja Harper/MérciaCosac

"Sou como uma parelha de quatro cavalos; minha esposa Marjorie é quem segura as rédeas"

André Rieu gosta de viver no limite de suas emoções; o intrépido filho de um maestro parece estar apaixonado o tempo todo. Ele é o líder de sua própria orquestra de 120 componentes (trata-se de um mal-entendido, pois a orquestra é formada por cerca de 50 integrantes; às vezes, dependendo do concerto, participam outros músicos, como convidados); viaja ao redor do mundo por pelo menos 6 meses durante o ano, e não hesita em fazer pequenas alterações em uma composição de Beethoven. André raramente concede entrevistas: "Estou cansado de tanta incompreensão." O violinista, rejeitado pelos críticos e idolatrado por seus fãs, é casado e pai de dois filhos.

Seu castelo em Maastricht é o lar do pai de família Rieu (56 anos). Ao lado da gigantesca árvore de Natal (a árvore já estava ali muito antes do dia de Sinterklaas, o Papai Noel holandês, por causa das gravações dos vídeo-clips para fins promocionais usados nos Estados Unidos), ele estende-se confortavelmente no sofá.

Você está diante de um homem a quem não era permitido sequer aborrecer-se, como qualquer adolescente; essa era uma palavra proibida em nossa família. Minha mãe argumentava que sempre havia algo útil para fazer. Hoje, quando estou aborrecido, vou dormir; posso dormir sempre que quiser, e em qualquer lugar. É necessário, pois levo uma vida muito agitada. Antes do Natal, vamos iniciar uma grande turnê pelos EUA. Vivo intensamente; e, por convicção. Não acredito mais que as coisas caiam do céu; você tem de viver o presente, e da melhor maneira possível.

Este ano André comemorou seu trigésimo aniversário de casamento com a Marjorie; juntos, tiveram 2 filhos, Marc (27 anos) e Pierre (25 anos).

(André mostra-se muito amoroso...)

Todos os dias estou apaixonado por Marjorie; por seu rosto; seus olhos; seus cabelos cacheados. Eu a conheci com a idade de 11 anos, ela tinha 13. Estudava na mesma classe que a minha irmã, e veio a uma festa de "Sinterklaas" (denominação de Papai Noel, na Holanda) em nossa casa. Pensei logo: " É com ela que vou me casar".

Anos mais tarde ela veio me visitar quando eu estudava no conservatório de música em Bruxelas. Ela não tinha a intenção de ficar, mas nós estávamos pré-destinados um para o outro. Creio que meia hora depois ela já estava em meus braços; e então, logo nos casamos.

(E, sorrindo muito, continua...)

Junto com a Marjorie, tive também meus anos de rebeldia. Sabe como é: eu tinha 20 anos de idade; queria parar com a música; e então, guardei meu violino dentro do armário. Eu estava me rebelando contra a seriedade de meu pai; contra o modo excessivamente rigoroso com que a música clássica tinha sido introduzida em nossa casa. Coloquei brincos nas orelhas; vestia roupas extravagantes; e, junto com a Marjorie, planejava abrir uma pizzaria.

Chegamos até a procurar alguns locais para isso. Minha idéia era tocar o violino junto às mesas dos fregueses. Marjorie foi muito inteligente. Ela disse: "OK, mas você pode também tocar o violino profissionalmente". E foi assim que aconteceu; sou como uma parelha de 4 cavalos; e a Marjorie segura as rédeas; puxa a parelha; guia. Ela sempre agiu assim, e ainda o faz.

Vocês são como espelho um do outro, ou são opostos?

Somos iguais em vários pontos. Existem, porém, algumas poucas diferenças: eu prefiro filmes de ação; Marjorie gosta de Grace Kelly.

Ela vem de uma família de comerciantes, que teve de fugir de Berlim, Alemanha, durante a Segunda Guerra Mundial; aprendeu a fazer negócios desde muito jovem, e também tem talentos musicais em seus genes. Ela gerencia as negociações para as turnês, para lançamento dos CDs e DVDs, para a orquestra.... É por isso que posso continuar sonhando e fazendo música, pois a Marjorie também é um auxílio para os meus ouvidos; ela participa da pesquisa do repertório e faz anotações. Depois, examinamos toda a lista juntos.

Ela não nos acompanha nas turnês longe de casa; não gosta de voar, e nós dois concordamos que ela não deve ficar sob a minha sombra, como fazia a esposa de Yehudi Menuhin, no passado. Ela ficava sentada em algum canto da sala de concerto, sem fazer nada. Marjorie é diferente: ela é a gerente da empresa Rieu.

(André silencia por algum tempo, sorri, e prossegue...)

Temos dois filhos, que acentuam nossas diferenças; um é o sonhador e o outro, um trabalhador. O mais velho, Marc, está quase terminando seu curso de História da Arte. Ele é um especialista em música de filmes; tem um "Ipod" de conhecimento em sua memória. Acho que ele vai ser um pintor.

O mais jovem, Pierre, trabalha para a empresa Rieu desde os 19 anos. Estudou Direito por 3 semanas e depois resolveu que queria trabalhar novamente! Desde os 14 anos ele dirige caminhões como um autêntico e experiente motorista. Atualmente, ele trabalha na administração das turnês e cuida dos locais de realização dos concertos, de forma que possamos fazer música, fazer boas refeições, etc...

André Rieu tem um mentor; alguém que o tenha inspirado a popularizar a música clássica?

Os concertos do meu pai! Ele geralmente tocava uma valsa de Johann Strauss ao final dos seus concertos de música clássica densa, e então a platéia sempre ficava mais descontraída...

E é isso que eu sempre quis: fazer as pessoas felizes com a minha música. Se uma composição muito difícil, de Hindemith, por exemplo, for apresentada em uma sala de concerto, toda a platéia fica sentada, quieta, ouvindo com atenção para identificar se alguma nota errada foi emitida. Se forem tocadas valsas de Johann Strauss, a atmosfera torna-se mais leve, ondas de energia positiva vibram através do ambiente.

É como em um romance: coragem de mostrar os sentimentos. Sem querer exagerar no impulso histérico de "trazer uma mensagem", posso citar Godfried Bomans (humorista holandês): "Todos nós deveríamos nos esforçar ao máximo para sermos terrivelmente felizes".

(E André repete...)

Meu mentor...? Admirava Toon Hermans (outro comediante holandês) por seu senso de "timing". Fora isso, pode soar como teimosia minha, mas gosto de fazer as coisas à minha própria maneira. Ouso alterar um pouquinho as obras de compositores famosos; com umas poucas alterações, o "Bolero", de Ravel, me pareceu soar um pouco melhor e eu também fiz algumas adaptações no "Concerto para piano", de Beethoven. Creio que melodias tão belas não deveriam ser apreciadas somente por um pequeno círculo de pessoas. Eu as modifico de forma que elas possam se apreciadas em salas de concerto lotadas.

(O violinista sorri levemente...)

Um crítico de Denver escreveu que paguei um cachê extra aos integrantes de minha orquestra, para que sorrissem durante os meus concertos! Que bom se essa atmosfera se mantivesse por muito tempo depois dos concertos; seria muito bom para a paz mundial!

Como você faz para relaxar-se?

Adoro obras de construção civil; assentar cerâmica. Quando jovem, construí um banheiro novinho em folha na casa de campo dos meus pais, na França, a partir do zero. Foi um trabalho magnífico! Em primeiro lugar, a fundação; a seguir a edificação. Sou o perfeito faz-tudo; poderia ter sido um bom técnico em instalações de água também. É preciso, pois vivo em um castelo construído com pedras leves de Limburg. Tenho um faz-tudo por todo o ano, que se ocupa dos reparos no castelo. Terminando de um lado, já pode iniciar do outro.

E ele não tem receio por suas mãos? Mãos que tocam um Stradivarius de 2 milhões de euros misturando cimento?

(André, parecendo responder com sinceridade...)

Nunca em minha vida, tive medo de algo assim; portanto minha resposta é não. Tenho responsabilidade; sou um realizador, e penso positivamente. Mantenho o sentimento de que no fim tudo sairá bem.

Alguém ainda consegue fazê-lo sofrer; já consegue conviver com os seus críticos?

(André engole em seco....)

Sinto-me fortalecido, depois de receber tantas críticas, mas não é nada agradável ouvir os críticos dizerem que a minha música é música de elevador....

É verdade que estou vendendo mais CDs que qualquer outro, e quanto às críticas, a Marjorie me consola mostrando-me as cartas dos fãs. Recentemente, recebi uma carta dos pais de uma garota com problemas motores; minha música a relaxava e então ela conseguia se movimentar melhor. Isso me tocou profundamente.

Sabe qual foi o único crítico sério que ousou me cumprimentar? Foi o famoso violinista clássico holandês Herman Krebbers! Ele foi um dos meus professores, e não pensava que eu estivesse no caminho errado.

Dos pecados capitais, qual deles o "Senhor do Castelo", André Rieu, aponta sem hesitação: consumismo?

(André, piscando os olhos...)

Não é tanto por ter um castelo, ou por tudo que adquirimos, mas como diz Herman Brood (um artista holandês):"Vivo momentos maravilhosos"

(E complementa...)

Foi uma tarde muito agradável, e de coração aberto.”