Entrevistas

16 - "Quem é André Rieu"

Á revista "De Nieuwe Revue", em outubro de 2003.

Tradução: Sonja Harper/MérciaCosac

“Nenhum artista holandês vendeu tantos discos quanto ele (cerca de 17 milhões); seus fãs o seguem por toda parte; e ele comanda um verdadeiro império.

"Revue" viajou na companhia do astro André Rieu a Cortona, Itália.

"Estou enlouquecida; algumas pessoas até sentem náuseas com meu comportamento; estou consciente disso; tornei-me inteiramente emocional".

São palavras de Mireille Bekooij, quarta-feira, 17 de setembro de 2003, dezoito horas; o local é a Piazza della Republica, na pitoresca cidade de Cortona, na região da Toscana, Itália.

Lá estão sendo realizados os ensaios para o concerto que será apresentado logo mais à noite pelo violinista André Rieu. Bekooij está fazendo uma reportagem sobre o novo CD de Rieu, o "Romantic Paradise", para o programa "Midday Magazine", do canal de TV holandês TROS.

Como o próprio nome indica, este CD envolve música romântica, clássica e leve.

"O pessoal da TROS adora a música de Rieu", diz Bekooij; assim como a banda BZN (banda vocal holandesa), ele está no topo das paradas, e Bekooij também o adora: "Sua música toca-me profundamente; tornei-me uma verdadeira "manteiga derretida".

A praça italiana está decorada com bandeiras em vermelho, ocre e amarelo, e a orquestra de Rieu, formada por 50 músicos, segue suas instruções com exatidão; esse homem, que está comemorando 25 anos de carreira, desce do palco e vem, pessoalmente, testar a qualidade do som em diversos pontos da platéia.

A orquestra começa a tocar uma valsa; ele faz uma brincadeira. Os membros da orquestra dão altas risadas por qualquer coisa. O ensaio termina com a canção "All men should be brothers" (a melodia é Ode of Joy, de Beethoven e a letra do poeta alemão Schiler).

Os italianos, e os turistas presentes, aplaudem longamente; por volta de 8:30h da noite, Rieu está de volta ao palco, e o concerto começa.

"Wilkommen, welcome, bienvenue, welkom" (Bem vindos).

André cumprimenta a todos em várias línguas; e especialmente para essa noite, até aprendeu algumas palavras em italiano. Indaga se esqueceu de alguém, e diz que quer um aplauso bem italiano; desaparece do palco por alguns momentos retornando logo em seguida para ouvir um estrondoso aplauso.

É o primeiro dos três concertos realizados em Cortona, para um programa especial a ser levado ao ar pelo canal de TV alemão ZDF.

É a primeira vez que Rieu apresenta-se na Itália, e por essa razão, ele fez pequenos ajustes no repertório especialmente para a ocasião; a orquestra abre a apresentação executando a conhecida melodia tema do filme " The Godfather".

Além de valsas e polcas muito conhecidas, executam também a melodia composta por Ennio Morricone, "Once upon a Time in the West".

Os italianos literalmente adoram; entre uma música e outra, Rieu conta várias estórias, como por exemplo, que ele, quando garoto, não conseguia mais dormir depois de assistir ao filme "Sissi", pois ficou inteiramente apaixonado.

A platéia, formada de jovens e adultos, fica cada vez mais empolgada à medida que a noite avança; durante a execução da última valsa, ele convida os casais para virem dançar à frente do palco, e cinco casais aceitam seu convite.

Quando a orquestra termina de executar o Hino Nacional da Itália, a multidão vai ao delírio; todos na platéia cantam juntos a plenos pulmões.

Bekooij diz que essa parte foi especialmente bonita; um senhor, já idoso, sentado na terceira fila, levanta-se e desdobra uma bandeira com os dizeres "Cortona ama André".

Na tarde seguinte, a ensolarada Piazza della Republica estava lotada de fãs de André Rieu; o homem com a bandeira lá estava outra vez, sentado na beirada do palco vazio. Dan Lycan é o seu nome; tem 72 anos de idade, e mora em Manassas, Estado da Virginia, nos EUA. Ele mostra seu cartão de visitas, onde pode-se ler "Fã de André Rieu", sob uma foto dele com Rieu.

Diz o ex-militar:"Em 1953, quando eu prestava serviço na base do Exército (americano) em Stuttgart, certo dia, fui com alguns amigos a Maastricht, e lá eu vi um garoto tocando violino; tocava tão bonito, que eu disse para os meus botões que um dia ele seria muito famoso".

Lycan está convencido de que aquele garoto era Rieu, apesar dele estar, na época, com apenas três anos de idade (parece-me difícil que fosse o André, pois ele nasceu em 1949).Quarenta e quatro anos mais tarde, Lycan o viu em um programa na TV americana; correu para assistir a um dos concertos, mas os ingressos já estavam esgotados. Agora ele viaja seguindo Rieu em suas turnês, e continua:

"Eu não me classificaria como um "groupie" (fã que “pega no pé” do artista), mas sou mais do que um simples fã; esta noite, assistirei ao seu septuagésimo concerto. Espero assistir ao centésimo antes de morrer. Não, não sou um milionário; tenho meus proventos de militar da reserva e meu seguro social; o segundo, uso em minhas viagens. A única coisa que tenho muito, é tempo livre; pelo menos é o que diz minha filha. De fato, trabalho mais pesado neste emprego, do que em quaisquer outros que já tive."

Lycan tem contato diário com fãs de Rieu, em várias partes do mundo, e está sempre trabalhando em suas bandeiras. Para cada concerto a que assiste, traz um texto diferente.

"André sempre conta as mesmas estórias e as mesmas piadas em seus concertos, o que fica um pouco "feijão com arroz" para os membros da orquestra; então eu, e desse modo, eles também, se divertem."

E por que Lycan preenche sua vida com Rieu?

"Ele faz com que este mundo fique mais bonito, e me faz feliz com sua música; eu era um homem muito rígido e reservado. Nunca me soltava: um militar típico; agora, quando ouço a música de André, não consigo ficar quieto. Creio em seu poder de unir as pessoas"

A praça está lotada de fãs para os quais a música de Rieu tem o mesmo efeito; a maioria alemães de meia-idade e idosos.

"Nós crescemos ouvindo este tipo de música", diz Horst Streisshardt, um senhor de 64 anos de idade, morador de Hamm, respondendo à pergunta porque aquele homem vindo de Maastricht é tão popular com seus vizinhos do leste.

"Quando criança eu tocava "Edelweiss" em uma gaita de boca; eu a toco do mesmo modo que ele."

Streisshardt trabalha como segurança em uma pousada; ele nos conta que, por muito tempo, teve grandes problemas com o stress.

“Mas, graças à musica de André, consegui superá-los; é uma música romântica cheia de emoção que toca-me profundamente. Mesmo durante os testes de som, meus olhos ficam marejados de lágrimas; ele torna a vida mais bonita"

Seu maior desejo é poder conversar com Rieu, pelo menos uma vez.

“Então eu falaria com ele sobre a minha admiração, mas sou muito tímido para me aproximar dele."

A dez metros de Streisshardt, estava André preparando-se para os ensaios; cuidadosamente, Streisshardt caminha em sua direção e fica a um metro atrás de Rieu, enquanto um amigo bate uma foto dele com o violinista; André aproxima-se para uma nova foto.

"Danke shön" (Obrigado), diz o alemão, com lágrimas nos olhos.

Alguns integrantes da orquestra tomam cerveja sentados em mesinhas espalhadas pela praça; estão acostumados com os fãs fanáticos e os cumprimentam amigavelmente.

"André nos aconselha a não estabelecermos relações muito pessoais com os fãs", diz o trombonista Ruud Merx (34 anos), de Eys, "por exemplo, nenhuma troca de e-mails"

Seu colega Ward Vlasveld (33 anos), de Brunsum,responsável pelos teclados e pelo sintetizador, aponta para duas mulheres ali na praça, acompanhadas de um garoto vestido com um terninho branco.

"Elas estão constantemente em volta de Rieu, se ele está por perto; de acordo com elas, aquele garotinho deveria estar morto e enterrado", diz Ward.

"Convenceram André que o garoto estava seriamente doente, na tentativa de atrair sua atenção; às vezes, acontecem esses excessos".

Os dois músicos estudaram em um conservatório, em Maastricht, e ambos vêm tocando com Rieu por mais de dez anos. Desde o início de seu sucesso, com a "Segunda Valsa", em 1995, três milhões e meio de discos vendidos, eles já o acompanharam por meio mundo; como músicos têm um emprego muito cobiçado.

"Antigamente a história era muito diferente", diz Ruud, "O mundo da música clássica estava muito desgostoso com André; as pessoas me diziam: "Você não vai desperdiçar o seu talento com ele, vai?" Então, nós estouramos. Agora podemos nos apresentar nos palcos mais chiques e luxuosos, e ainda ganhamos um bom dinheiro".

"Quando se toca em uma orquestra de província, se tiver sorte chegará a tocar em Amsterdam ao menos uma vez no ano. Nós tocamos no Royal Albert Hall (em Londres); foi a maior ciumeira...", diz Ruud.

E Ward completa: Ex-colegas nossos, que me chamavam de louco, agora nos chamam para pedir: “Posso te substituir, quando estiver doente?” Não!!!

E continua: ”Em cada lugar, temos um público diferente; no Japão, para onde vamos novamente em outubro, a platéia tem um determinado comportamento. Na Alemanha, as pessoas tem um grande respeito pela música; há uma cultura de "concert goers" (freqüentadores assíduos de concertos); quando executamos a valsa "On the Blue Danube", por exemplo, eles adoram.

Já quando nos apresentamos na Holanda, o público logo começa a nos acompanhar, cantarolando, e é até divertido. Se você faz sucesso na Alemanha, torna-se um astro pelo resto da vida; na Holanda é um fenômeno mais passageiro."

Eles consideram seu patrão um típico sonhador.

Para um modesto habitante de Limburg, ele já foi muito longe, diz Ward.

Se ele permanece humilde...? Ele dirige uma "big" Mercedes, que, a propósito, foi paga por um patrocinador, mas eu não gostaria de ter de pagar uma fábula para seu licenciamento, diz Ruud.

E as multas por excesso de velocidade, completa Ward, ele é um verdadeiro infrator; adora velocidade, e se pudesse, compraria um Boeing 747 e o pilotaria pessoalmente.

Rieu é rigoroso também, mas justo, comenta Ruud.

“Ele observa tudo o que acontece no palco e exige dedicação integral; mais alma e coração do que perfeição absoluta; mas nem tudo, porém, gira em torno de música; há também muito tempo para o lazer. Quer saber como é a nossa vida?"

E Ruud, com um sorriso no rosto: "Cerveja!!!!", e pedem outra rodada.

"Você acha que esta entrevista prolongar-se-á por muito tempo?", André Rieu responde, zangado; estamos sentados em frente a seu hotel e são 10 horas da manhã do dia seguinte ao segundo concerto.O repórter já tomou algumas garrafas de cerveja junto com os integrantes da orquestra, e então tenta fazer uma piada:

“Como aconteceu de Rieu tornar-se tão popular em países que estavam em lados opostos durante a Segunda Guerra Mundial?”

O violinista comenta que uma vez, há alguns anos atrás, outro indivíduo tentou fazer-lhe uma piada também: um repórter do "Trouw" (um jornal holandês) lhe disse que o que ele fazia no palco era horrível.

Isso já me aconteceu antes; não é inacreditável?

Voltou a aparentar felicidade, conversando sobre seu novo CD e como, com um mapa em mãos, dirigia através da região da Toscana, procurando por um belo local para as filmagens de seu novo especial para a TV; como a equipe técnica o amaldiçoou porque o centro antigo de Cortona estava situado no alto de uma montanha, somente podendo ser alcançado a pé, e assim, tiveram de carregar o equipamento e tudo o mais, montanha acima.

Falava que o título de seu novo CD, "Romantic Paradise", tem tudo a ver com ele, por ser ele também um homem extremamente romântico; e que não desempenha um papel: nunca!

Sei que algumas pessoas ficam até enjoadas com tudo isso, mas o fato é que sou assim.

Por isso é fez aquela observação sobre o repórter do jornal holandês, e pergunta com raiva à repórter: “Você está consciente do que disse?".

Depois de responder rapidamente a várias outras perguntas, volta a seu estado normal, mas permanece desconfiado.

Sua equipe é formada por mais de 120 pessoas, e todos viajam com ele. Logo estarão de viagem para o Japão, e depois para a Irlanda.

Viajam por seis meses durante o ano.

Que mais pode-se esperar de um astro internacional, que já vendeu mais de 17 milhões de CDs?

Através do seu site, pode-se comprar, não somente música, mas também, jóias, pratos e até perfumes e gel para banho, de sua própria marca "Stradivari", assim designada por causa de seu Stradivarius de 1667, que lhe custou mais de um milhão de euros.

Sou um músico; não conseguiria ter outra profissão; todo o resto vem junto; não diria um império...as pessoas à minha volta é que o dizem; apenas tudo se desenvolveu dessa forma; você começa pequeno, e vai tornando-se maior e maior. A primeira vez que você se vê negociando o preço necessário para fazer uma apresentação é de morrer de medo!

Quanto....?... Rieu não dirá!

E ferino, ele diz:

Porque as pessoas que trabalham com música, ou outro tipo de arte, não podem falar sobre dinheiro? Os quadros de Corneille podem valer uma fortuna, mas o que faço não é arte... certo?

Ele parece um tanto frustrado, mas sabe que há pessoas que têm essa opinião.

Tocamos como qualquer outra orquestra, mas porque eu adiciono alegria e espontaneidade... então estou contra a correnteza.....

Ao conversarem sobre hábitos de trabalho, as coisas quase azedaram entre o músico e a repórter da "Revue":

Tenho de ser rígido; não pode ser de outra forma. Deve-se ter mais disciplina tanto na vida como na política. Hoje em dia há muita confusão ao nosso redor, e cada um faz o que quer; é uma vergonha!

São muitas pessoas para te dizer o que deve ser feito; sei o que você está pensando, mas o problema é seu! O método que uso funciona muito bem.

Diz que o fato de não se apresentar na Holanda mais vezes não tem nada a ver com a crítica.

Meu produto tornou-se tão grande que sai muito caro para a Holanda; lá ninguém estaria disposto a pagar o necessário ou me patrocinar; então tenho que cobrir todos os custos.

Além do mais, na Holanda, não há muitos espaços onde posso realizar os concertos, se quiser ter algum lucro após pagar todas as despesas; os espaços são muito pequenos e os holandeses só estão dispostos a pagar a metade do preço pelo meu produto. É simples..., mas, também, há uma outra razão muito importante: por vinte anos percorremos toda a Holanda com a Maastricht Salon Orkest; agora é a vez dos outros países."

Ele adora a vida que está levando; o que mais pode fazer?

"Aposentadoria...?...nem pensar! Todos pensam que sou rico; ganho muito dinheiro, é verdade, mas gasto ainda mais. Quanto você acha que custa tudo isso? Tenho de cuidar de tudo sozinho; se eu parasse amanhã e vendesse tudo, não restaria nada. E o que eu iria fazer...ficar em casa? Talvez, eu ficasse ainda em condições de alugar uma pequena casa na cidade, e continuasse tocando e mantendo as coisas em andamento."

Ele está orgulhoso do fato, de que, graças a ele, muitos adultos estão conhecendo Mozart, Verdi ou Schumann; este é um fato muito bom, mas esta não é a razão pela qual faço minha música.

"Sou eu que vou educar o mundo?"

No entanto, ele tem seu coração onde deve estar:

"Desde garoto, eu sempre participei de eventos de caridade; lembro-me bem quando Mies Bouwman (apresentador de TV holandês) fazia uma campanha na TV com o programa " Abra um Abrigo" (trata-se de uma maratona de 24 horas na TV, realizada em novembro de 1962, para construção de um abrigo para pessoas deficientes) eu imediatamente corri para apanhar o meu cofrinho; isso combina com o caráter de um romântico.

Adoro atmosferas como a de ontem à noite, com a presença de pessoas de várias nacionalidades; sou muito sensível à harmonia...detesto brigas ou discussões; não consigo conviver com isso. Eu me sentiria realmente feliz se todas as pessoas pudessem conviver pacificamente.

Não pretendo, necessariamente, fazer o mundo melhor; já me dou por satisfeito em ver uma praça como esta aqui em Cortona ficar enlouquecida. Não encaro como havendo uma missão por trás disso; somente procuro fazer bem feito, e quero mostrar o meu trabalho tantas e tantas vezes mais; é tão simples...

Qualquer psicólogo lhe falará que isso tem a ver com a teoria do "feed-back" ; quando a cada apresentação se conseguir confirmar que você sabe o que está fazendo, então você se torna uma pessoa satisfeita.

Jennifer Lopez colocou seu traseiro no seguro; você fez o mesmo com as suas mãos?

Não, não o fiz; tenho de pagar 120 pessoas todos os meses, e tudo isso depende de minhas mãos; então tomo cuidado. Eu costumava trabalhar com construções, mas não faço mais essas coisas.

Conheço o assunto, o que é sempre bom; durante a construção do palco, ninguém ousa me ensinar nada: tenho o conhecimento de todas as coisas; sou um louco controlado, e as pessoas gostam disso. Elas se esforçam mais para fazer as coisas de forma correta, porque eu virei para verificar mais tarde; funciona muito mais rápido dessa forma.

Em casa é sua esposa quem "veste as calças"?

Não!

(inicialmente responde sério, e depois continua):

Mas é uma boa piada.

Nesse ponto ele tem de interromper a conversa, pois tem outra entrevista agendada com a TROS.

No "lobby" do hotel está Dan Lycan; ele está ocupado com a confecção de outra bandeira para logo mais à noite.

Que estará escrito dessa vez?

"André, nos veremos no Japão!"