Entrevistas

11 - "Rieu não é mais só uma palavra com 4 letras"

Ao Jornal "De Limburger" - 07 de julho 2002

Tradução: Sonja Harper/MérciaCosac

“André Rieu: líder de orquestra, empresário, "globetrotter", nascido em Limburg; para as classes culturais mais altas, ele é o “André Hazes” da música clássica. (Andre Hazes é um cantor holandês, em cujo repertório predominam os dramas da vida); para seu imenso público, ele é o mais popular herdeiro de Mozart, Strauss e Beethoven; já vendeu quinze milhões de CDs e viaja ao redor do mundo, com sua orquestra, formada por cinquenta músicos.

Você é um violinista de ponta?

Não sou um acrobata no instrumento, nenhum virtuoso capaz de todas as proezas com um violino. Para tanto, teria de estudar cinco horas por dia, e isto, para mim, não vale a pena. Executo o que sou capaz e que seja do meu gosto pessoal. Nunca tocaria algo somente porque o público pede; de fato, acontece exatamente o contrário: milhões de pessoas, em todos os cantos do mundo, amam a música que escolho.

Há também pessoas que consideram sua música como poluição sonora comercial.

O público pertencente à elite, e também os meus irmãos, músicos profissionais, ficaram desgostosos comigo, quando, há cerca de vinte anos atrás, organizei a minha própria orquestra de salão, e passamos a tocar em concertos que denominamos "Hieringe Biete", em Maastricht. De acordo com eles, eu havia desrespeitado a música erudita; era muito presunçoso e somente desejava fama e fortuna.

E eu, com a "mão sobre o coração", somente queria torná-la mais vivaz e bem humorada; só queria tornar aquela tediosa música clássica mais agradável e acessível ao grande público.

Teve êxito?

Até hoje, em 2002, já foram vendidos quinze milhões de nossos CDs. Minha orquestra, formada por 50 músicos e eu, realizamos 110 concertos ao ano. Tenho uma equipe de 130 empregados; viajamos por todo o mundo participando de numerosos shows de TV, e em toda parte em que estamos, somos muito bem recebidos. O desgosto do passado está se transformando mais e mais em admiração. Rieu não mais é apenas uma palavra com 4 letras.

Creia-me, não estou orgulhoso pelo fato de saber que estava certo, mas sim porque tornei meus sonhos realidade; porque ouvi meu coração e perseverei. Eu nunca o teria feito por dinheiro. Nunca! Quando deixei a Orquestra Sinfônica de Limburg, minha esposa precisou trabalhar dobrado para nos sustentarmos. Agora viajamos pela Europa com treze caminhões, três deles somente para transportar candelabros e tapetes. Faço a decoração completa de cada ambiente em que nos apresentamos; então meu público sente-se bem em meus concertos. Tudo isto custa milhões, que eu poderia, tranquilamente, gastar comigo mesmo.

Já estão ricos?

Naturalmente que entra muito dinheiro em nossa empresa, mas todo ele é reinvestido em nossa música. Fazemos toda a produção para os concertos, o guarda-roupa, a iluminação, o som, o transporte, a gravação de CDs, de vídeos, o marketing, e assim por diante. É tão tipicamente holandês sempre falar sobre dinheiro.

Há pouco tempo atrás, vi Gert, da Bélgica, no “Barend e van Dorp” (é um programa de TV holandês). Gert fazia grande sucesso com o programa "O Cãozinho Samson e o Gnomo Plop". E sobre o que conversavam? Sobre o fato daquele homem ganhar tanto dinheiro com seu programa!

Ainda ecoa em meus ouvidos as palavras do antigo diretor do teatro de Maastricht, Kersten, na época em que começamos com a orquestra de salão: "Você..., você só quer mais dinheiro e mais público". Realmente, esse era exatamente o meu objetivo: levar um número cada vez maior de pessoas a apreciar a música erudita. E se você quiser realizar sonhos incomuns, é preciso ter dinheiro. Porém, todo esse dinheiro não me modificou como pessoa. Ainda sou o mesmo "homemzinho" difícil de sempre.

"Homemzinho difícil”?

Posso ser bastante teimoso e obstinado.

No entanto, muitas mulheres te adoram. Como se sente um homem, com 52 anos de idade, ao ser tão desejado?

Não me queixo: faz bem ao ego. Quando eu estava no colégio, as garotas da minha classe me trocavam por outros rapazes, e agora, de repente, muitas mulheres me adoram. Se sou monógamo? Sim, pelos últimos 27 anos estou casado com uma mulher inspiradora e com um grande senso de humor. A atenção aos eventos do "show-business" faz parte da profissão. Você tem de posar de astro, pois do contrário, não vende seus CDs, seus vídeos, ou os ingressos para seus concertos. Por três horas, durante nossos concertos, criamos uma atmosfera muito romântica; um mundo onde se curam dores e sofrimentos, com belas mulheres em vestidos de noite, e homens em trajes de gala. Com isto, a adoração vai lá em cima.

As roupas fazem o homem?

Não; existem muitos homens que não conseguem estar elegantes nem em trajes de gala. Por outro lado, homens charmosos podem estar elegantes, mesmo usando camisetas. O homem é que faz o homem; não suas roupas.

Que tipo de homem é você?

Eu sou um homem realizador, e um tanto impulsivo. Algumas vezes me reconheço em Pim Fortuyn, (Pim Fortuyn era um político holandês. Era brusco, franco e excêntrico; foi assassinado em 06 de maio de 2002). Eu o admirava muito. Aquele homem queria fazer as coisas acontecerem e, como eu mesmo fiz, queria mudar o "establishment" ultrapassado.

Minha esposa costuma me comparar com uma parelha de quatro cavalos que ela tem de manter sob controle. Eu borbulho, com energia e otimismo. Desde criança já dizia que queria viver até os 120 anos.

Dia e noite, estou ocupado com música; isto é, música clássica. Nunca ouço outro tipo de música. Nem em casa ou no carro. Meu pai era maestro da Orquestra Sinfônica de Limburg e desde a minha infância, não ouvia outra coisaque não fosse música clássica. Nomes como Rex Gildo ou Roy Black nada significavam para mim quando criança. Através do meu sogro, um exilado judeu proveniente de Berlim, encontrei Catherina Valente e a música de opereta. Foi assim que também descobri a valsa e aprendi a apreciá-la.

Você esperaria que um músico tivesse interesse também em outras correntes musicais?

De vez em quando eu ouço algo atual, vindo dos quartos dos meus filhos, ou quando vamos a uma festa. Mas, no entanto, não significam muita coisa para mim. Minha vida gira em torno da música clássica. Tudo que faço, acho fantástico e agradável. Tenho de me colocar à prova todos os dias, justamente como fiz há vinte anos atrás, mas fazer música não me faz sentir que estou trabalhando.

Nós nunca saímos de férias; no máximo uns poucos dias na Floresta Negra. Passo fora de casa 180 dias ao ano, e então sinto-me feliz por estar em meu próprio jardim. Porém, mesmo em casa, meus pensamentos estão sempre no trabalho, procurando por novas composições ou idealizando novos projetos.

Como se mantém saudável fisicamente?

Eu corro ou durmo. Inicio cada dia fazendo caminhadas. Acabamos de retornar de uma turnê de três semanas pela América do Norte. Lá, tínhamos um ônibus especial repleto de equipamentos para ginástica. E, além do mais, posso dormir a qualquer momento do dia; antes dos concertos também. Sempre levo meu sofazinho vermelho comigo, esteja onde estiver. Às cinco horas fazemos a checagem do som, e das 5:45 até às 7h tiro um cochilo, de forma a estar cheio de energia no palco.

Porque você é tão apegado aos seus pertences?

Pode parecer um tanto piegas, mas posso ficar fora de casa por 180 dias ao ano justamente porque tenho um lar! Elvis Presley não se sentia em casa em nenhum lugar, e a vida em hotéis foi sua ruína.

Nós decoramos dois ônibus, completamente, com objetos pessoais dos membros da orquestra. Sempre carrego comigo meu próprio sofazinho, e também a mesa de maquiagem. Sou realmente um homem do tipo "lar doce lar". Nós poderíamos facilmente fazer uma turnê de três meses através da América, mas preferimos fazer quatro turnês de três semanas.

Estar em casa regularmente é importante para todo ser humano. Não importa onde nos apresentamos na Europa, retornamos a Maastricht quase toda noite. Para distâncias de até 700 km, usamos os nossos ônibus. Se formos para mais longe, voamos de volta em nosso próprio avião Fokker. Sempre viajo com o meu pessoal, a menos que tenha entrevistas extras para a TV; então vôo em meu segundo avião, para ir e voltar.

Você é um bom patrão?

Sigo o modelo japonês: lá, o empregador cuida dos seus empregados pelo resto das suas vidas. Pago os maiores salários entre todas as orquestras, mas exijo dedicação, disciplina e senso de humor. Naturalmente meus músicos devem ser capazes de tocar bem, mas eu os seleciono também em função de sua personalidade. Os candidatos devem ter afinidade com a nossa maneira de ser. Temos de atuar como um time em todas as vezes em que estivermos no palco; mesmo se estivermos em mãos de outros, durante uma turnê de três semanas.

Nem todos permanecem com você.

Tenho um respeito sincero por meus empregados, mas se for necessário, posso ser bastante rígido e duro. Receio que tenha sido obrigado a "queimar" algumas pessoas. E por vezes, acontece alguma retaliação. Mas quero deixar bem claro uma coisa: não vou deixar que ninguém destrua o que criei.

Você é conhecido como um aficionado pela perfeição.

De fato; porém, isto, na maioria das vezes, constitui um dos pilares do sucesso.

Quando começamos com a orquestra de salão, devíamos nos apresentar por três noites no "Café 't Kneipke", em Maastricht. Mas eles tinham um piano horrível. E, embora precisássemos terrivelmente do dinheiro, por dois dias eu me recusei a tocar. Então começaram as fofocas sobre ser um presunçoso. Certa vez, ouvi dizer que o produtor Robert Wise, durante as filmagens de "A Noviça Rebelde", esperou por três dias, com toda a sua equipe, pelo momento exato do pôr do sol que ele queria. Sou assim também: sempre almejo o máximo. E quando tenho êxito, então sinto-me nas alturas.

E então chora?

Sim, posso até chorar; mas não seria a primeira vez. Quando assisto ao filme "A Noviça Rebelde", as lágrimas sempre aparecem; mesmo se for pela octogésima-quarta vez.

Porque esse filme em particular?

É uma obra-prima. Mas estou certo que tem algo a ver também com o fato de que eu era um rapaz de onze anos que apaixonou-se imediatamente por Julie Andrews. (A governanta que auxiliou as crianças von Trapp a escapar da Áustria para a Suíça durante a guerra.). Aquela foi a primeira vez em que perdi o sono, à noite. A segunda vez foi por causa das prestações, quando eu e minha esposa compramos nossa primeira casa, no Distrito de Daalhof. A terceira durante a inauguração do meu estúdio em Maastricht, quando se está falando de milhões!

Quanto Maastricht é importante para você?

Eu sou e sinto-me inteiramente um  alguém de Limburg, e particularmente, de Maastricht: é uma cidade fantástica.

Em todos os concertos, não importa em que lugar do mundo nós estejamos, eu cito o nome Maastricht pelo menos umas cinco vezes. E quando sou entrevistado por algum canal de TV, sempre convido os câmeras para virem a Maastricht. Tenho, nos últimos anos, recebido muitos prêmios e condecorações, mas nada me comoveu tanto quanto receber a "Condecoração de Limburg", e a cidadania honorária de Maastricht, pela simples razão que aquelas condecorações foram-me concedidas pelo povo daqui.

Ainda assim, você está começando a cortejar Roermond.

Por alguns anos, vou apresentar concertos ao ar livre em Roermond. Tivemos alguns problemas para organizar concertos na Praça Vrijthof, em Maastricht, e em Roermond, eles tem uma boa receptividade para a realização de eventos "Maasplassen".

Tais concertos, contudo, não têm nada a ver com a idéia de apresentar concertos "Rieu e Amigos", reunindo artistas como Pavarotti, etc. Esses tipos de concerto são especialmente realizados, em primeira instância, somente para a TV alemã ZDF.

Com que realmente o seu público se parece?

Literalmente há gente de todo tipo. De jovens a idosos e de faxineiras a professores. A mais linda mistura que se possa imaginar. Não os esnobes que tentam analisar a minha música, mas pessoas que gostam de me deixar guiar seus sentimentos. Eu desconfio de pessoas que dizem que você precisa ser educado para a música.

São esses os mesmos que o culpam por ter encurtado o "Bolero de Ravel", de quinze para seis minutos?

Imagine você. Não é o fato de mutilar uma composição. Leva-se anos para criar coragem de fazer uma coisa dessas. Penso que a composição, em si, não foi afetada. Somente a tornei mais acessível. Eu popularizo a música; não a modifiquei, como o faria, se desse um toque popular a "Air", de Bach, ou a "Romance", de Beethoven. No entanto, sempre haverá pessoas que discordarão de mim. Após vinte anos, eu penso: "que seja!".

Meu lema é: "Não desista nunca: vá em frente!"