Entrevistas

1 - “À sombra de André Rieu”

Entrevista concedida não por André, mas por sua esposa Marjorie Rieu ao jornal "De Limburger", em julho de 1996, antes do lançamento, em agosto de 1996, do livro escrito por ela sobre a trajetória de André Rieu: "André Rieu, Meu Trabalho, Minha Vida".

Tradução: Sonja Harper/MérciaCosac

Por oito anos Marjorie Rieu atuou, por trás das cenas, para o sucesso de seu marido André Rieu. Ela se ocupava da preparação do material de divulgação; fazia os contatos para as apresentações; cuidava da correspondência e contribuía para a escolha das músicas para o seu repertório.

Agora, que ele já atingiu o topo, ela acaba de escrever um livro sobre seu marido: "André Rieu, Meu Trabalho, Mnha Vida".

A base para o sucesso de André foi estabelecida, na realidade, através do pai da Marjorie; durante os anos 30, esse homem, alemão de nascimento, fugiu de Berlim e exilou-se nos Países Baixos ou Holanda.

A única coisa que trouxe consigo foi a sua grande coleção de discos, com valsas e músicas de óperas. Quando sua filha Marjorie, anos mais tarde, apresentou essa coleção a André, ele, de imediato, ficou bastante entusiasmado. O resultado é bem conhecido: André deu um tratamento especial a essas melodias, fazendo os arranjos à sua maneira, e sacudiu todo o país com seu violino, e posteriormente, também o mundo.

Marjorie Rieu conta tudo em seu livro, que será lançado em agosto de 1996. Ela descreve esta história de sucesso, na qual ela própria teve um papel altamente relevante. Por 18 anos Marjorie enviou material de divulgação a grandes e pequenas salas de espetáculo, na tentativa de persuadir os diretores dos teatros a darem uma chance para que seu marido pudesse se apresentar.

Juntamente com André, ela auxiliava na organização do repertório, e escrevia os textos de pequenos esquetes apresentados entre uma música e outra; cuidava da correspondência e argumentava com os diretores de teatro que se recusavam a levar a música de Rieu a sério; os mesmos diretores que agora disputam a primazia de ter este violinista e sua Orquestra Johann Strauss, com agenda lotada e com ingressos esgotados, em seus teatros.

Marjorie ainda tem dificuldades para compreender como tudo aconteceu. Em sua casa luxuosa em Maastricht, que o casal chama de lar, ela ainda não se acostumou com a vista espetacular para o rio Maas.

"Ali está mais uma fã curiosa". Por detrás das cortinas ela aponta um carro que, vagarosamente, passa em frente de sua casa. "Diariamente, ônibus e carros cheios de fãs vêm e tentam ver o interior da casa", diz ela. "Eu ainda me surpreendo quando os vejo".

Ao lado da residência existe um romântico castelo, utilizado para a instalação do novo escritório da André Rieu Productions.

"No início, tínhamos o escritório em casa, mas ele se tornou muito pequeno. Quando André começou, nós mesmos construímos uma pequena escrivaninha juntos: uma espécie de armário, com uma pequena caixa de entrada para correspondências à esquerda, e uma para saída, à direita. No centro, uma máquina de escrever. Esta pequena escrivaninha, feita à mão, foi substituída por um castelo, com torres, às margens do rio Maas".

Marjorie prefere não ver a si mesma como empresária de seu marido: "Um empresário diz a um artista exatamente o que ele deve fazer, e eu não tento fazer isto com o André". Ela lembra-se muito bem, no entanto, como foi organizar a primeira apresentação para seu "Stehgeiger" (violinista que toca de pé) no CafeéCharlemagne, situado na "Onze Lieve Vroweplein", nome de uma praça, em Maastricht, que significa Praça da Amada Nossa Senhora.

"O pagamento era uma garrafa de cerveja. Sempre foi uma dura luta, pois ninguém te recebe com os braços abertos. Eu enviava constantemente folhetos e cartas para todo o país; para cada sala de espetáculos que pudesse encontrar. E acompanhava, telefonando um mês depois, para saber do interesse nas apresentações. Na maioria das vezes, não era o caso. Não levavam nossa música a sério. Mas, outras vezes, quando tinham um pequeno orçamento destinado para música, preferiam contratar a Operetta Capital ou a Orquestra de Salão de Groningen (cidade situada no norte do país). Em Maastricht e Heerlen não era tão ruim, mas por anos, não tocamos em Roermond e em Weert, porque não nos levavam a sério.

"Inicialmente queriam que André escrevesse o livro, pessoalmente. Porém, ele não tinha tempo para isso. E assim, como eu o havia acompanhado em cada passo do caminho, sugeri que eu poderia assumir a tarefa de escrevê-lo.

Escrever livros não era novidade para Marjorie, uma vez que por anos a fio, essa ex-professora traduzia literatura popular, do alemão, e fez parte da equipe redatora do dicionário Van Dale. Em 1973, ela publicou seu primeiro livro, "Verwandte Worter" (Palavras Afins), um livro contendo sinônimos para estudantes da língua alemã.

"Não acho que os alunos gostaram muito daquele livro. Espero que o meu livro sobre André tenha mais sucesso".

Quando André iniciou as apresentações com a Orquestra Johann Strauss, em 1987, simultaneamente às apresentações com a sua orquestra de Salão (Maastrichts Salon Orkest), Marjorie contratou umasecretária para meio-período. Havia muito a ser organizado, especialmente tendo em vista que a orquestra estava crescendo.

"As coisas efetivamente saíram de controle quando explodiu o sucesso com a Segunda Valsa, cerca de dois anos atrás. Você espera pelo sucesso por um longo tempo, e quando ele finalmente aconteceu, tornou-se opressivo, diz Marjorie, especialmente no primeiro ano."

"A cada apresentação agendada, costumávamos gritar: Hurra, temos comida à mesa de novo!. Mas, durante o sucesso de "A Segunda Valsa", eu somente conseguia ver o André pela televisão; ele estava sempre em viagem. Graças a Deus, agora podíamos nos dar ao luxo de não nos apresentarmos aos domingos e, atualmente, há sempre bastante comida à mesa".

Marjorie encolhe os ombros, um tanto perplexa.

"Oh, não sou alguém que suspira por milhões. Não quero nenhum Jaguar em frente de casa e nem um luxuoso iate no rio Maas. Vivemos em uma linda casa, mas se tivéssemos que mudar amanhã para uma casa menor, não seria um problema para mim, desde que fosse uma casa agradável e confortável. As pessoas sempre me perguntam se não estamos satisfeitos, e se não poderíamos agora ir mais devagar. Mas temos uma empresa com quarenta empregados e, especialmente por este fato, temos de continuar, pois somos responsáveis por isso tudo".

"Agora as coisas estão indo realmente bem, contudo sempre tenho o sentimento de que o sucesso é passageiro, e que em algum momento, ele terá passado. Nesse aspecto, André é muito mais otimista, e eu sou mais realista. E além do mais, o sucesso tem também os seus pontos negativos, e as pessoas algumas vezes sentem pena de mim quando percebem quanto sucesso André faz com as mulheres. Dizem que deve ser muito difícil para a Marjorie. Principalmente as revistas sensacionalistas: adoram escrever sobre isso. Eu simplesmente fico nos bastidores quando, após um concerto, as mulheres correm para cima dele. Não quero tirar esse prazer delas; faz parte do show. Uma amiga sempre me diz: "a fama é erótica", e você não pode imaginar que espécie de cartas recebemos diariamente. Hoje André recebeu uma carta cor de rosa, dos EUA, que, com letras enormes, dizia: sou solteira, e você?

Algumas vezes ele recebe cartas com fotos de mulheres vestindo apenas lingerie. Oh, bem, eu simplesmente deixo acontecer e não me preocupo com isso. Graças a Deus, há muitas cartas de fãs que realmente gostam de sua música. Com frequëncia há também casos de pessoas que estão doentes e que esquecem seu sofrimento por alguns instantes quando ouvem sua música. Isto é muito gratificante, e me faz sentir muito bem".

No caminho para o sucesso, Marjorie sempre trabalhou duro nos bastidores e ela ainda prefere estar longe da publicidade. Ela nunca está ao lado de seu marido em festas. Ela detesta quando é apresentada como a esposa de André Rieu, e foi com muita dificuldade que a persuadimos a conceder esta entrevista.

"Quero viver uma vida normal; aqui em Maastricht não é tão ruim; as pessoas estão acostumadas com André, mas no resto do país, ele não pode andar pelas ruas sem ser importunado. Eu prefiro ficar longe tanto quanto possível. Gosto de ir a festas, mas com meus amigos. Aquelas festas badaladas...aquilo não é para mim. Depois as revistas vão escrever sobre o que você estava vestindo, com quem você estava conversando, e, nunca escrevem a coisa certa. Além do mais, um escritor pertence à sua escrivaninha, e não à TV ou a um jornal. Sempre fico um tanto desapontada quando leio um livro, e mais tarde vejo o escritor na TV. Então, para mim, perde-se um pouco da magia".